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Carta
de Agosto, 2006
“Caríssimos, não foi seguindo fábulas habilmente inventadas que vos demos a conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas, sim, por termos sido testemunhas oculares de sua majestade” (2Ped 1,16).
Muito amados irmãos e irmãs, habituais ou eventuais leitores e leitoras:
É sobre a Transfiguração de Jesus diante de seus três privilegiados discípulos, Pedro, Tiago e João, que desejo refletir com vocês neste mês.
A princípio, pensei em repetir uma das cartas escritas já há alguns anos sobre o tema. Depois, decidi que não, pois “transfiguração”, pelo seu prefixo “trans”, é precisamente uma palavra que em si mesma já denota passagem, mudança e sugere dinamismo, movimento, transformação. E, se existe um tempo de tão rápidas transformações e mudanças, é este nosso. Por estarmos tão acostumados a ruidosos espetáculos, tanto os bons quanto os violentos, comuns em todos os níveis, é bem possível que estejamos a nos perguntar sobre o sentido da transfiguração de Jesus, ontem para os discípulos escolhidos e, hoje, para nós, os discípulos também chamados pelo nome.
1. A transfiguração de Jesus ontem. Ao serem chamados por Jesus para acompanhá-Lo naquela íngreme escalada, com certeza os três mais íntimos dos seus discípulos, mal podiam suspeitar de que estavam para receber uma surpreendente e fascinante revelação. O Pai já manifestara abertamente à multidão que o rodeava, à beira do Jordão, no dia do seu batismo por João, a filiação divina de Jesus: “E do céu veio uma voz: “Tu és o meu Filho amado; em ti está o meu agrado” (Mc 1,11). Agora, na intimidade dos discípulos mais queridos, Ele mesmo se revelava no esplendor de sua glória e, de novo, sua divina filiação era confirmada pela mesma voz do Pai: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!” (Mt 17,5). Jesus mostrava, assim transfigurado em todo o seu esplendor, além da natureza humana da qual estava revestido, a sua natureza divina. Com certeza foi a prova definitiva para seus apóstolos que, depois, deveriam confirmar os demais.
2. A transfiguração de Jesus hoje. Iluminados pela luz da fé, nós, os cristãos de hoje, podemos refletir sobre a transfiguração de Jesus e, até, nela participar, sob dois focos muito significativos: a) transfigurando-nos em Jesus; b) mostrando o Cristo transfigurado, com a nossa própria vida, às pessoas que nos cercam e ao mundo no qual vivemos.
a) Transfigurar-nos em Jesus. Todos nós, batizados, somos chamados, como os discípulos, para subir o monte com Jesus e, o mais importante, para transfigurar-nos nEle e com Ele. Naquele momento, esse privilégio não foi dado a Pedro, João ou Tiago. A nós, sim, é-nos dada essa divina graça. Mas como acontece essa transfiguração? A resposta é simples: pelo caminho da conversão. Conversão é, antes de tudo, volta para a casa do Pai. É deixar o caminho que nos distanciou de Deus e empreender o caminho – muitas vezes doloroso – da volta. Doloroso porque exige renúncia, sacrifícios, doação de si mesmo e a prática do amor fraterno que “constrói a Corpo de Cristo”. Trata-se de uma, digamos, “transfiguração progressiva” que nos permite fazer a experiência diária de Jesus transfigurado, “até chegarmos, todos juntos, à unidade na fé e no conhecimento do Filho de Deus, ao estado de adultos, à estatura do Cristo em sua plenitude” (Ef 4, 12-13), e alcançarmos a intimidade com Jesus.
Para ter uma idéia de como se sente quem levou ao ápice essa experiência e, ao mesmo tempo, buscar inspiração para fazê-la em sua vida, leia devagarinho, saboreando-as, estas palavras de Santo Agostinho, o grande exemplo de conversão e de encontro com Jesus: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas de tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e a tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz” (Santo Agostinho, Confissões, X, 38).
b) Mostrando, em nossa vida, o Cristo transfigurado. O discípulo de Cristo nos dias de hoje tem pela frente o grande desafio de apresentar a face de Cristo a um mundo polarizado. Assim, ele pode-se defrontar, de um lado, com um mundo hostil, que nem sempre está disposto a palmilhar o CAMINHO, a aceitar a VERDADE e a viver a VIDA, ou, de outro, com um mundo repleto de pessoas que, com certo entusiasmo, adoram o Cristo transfigurado no Tabor – o qual identificam com alegrias e emoções transitórias, mas se recusam a chegar aos pés do Cristo desfigurado na cruz, para assumir com Ele a salvação de seus irmãos.
Ao voltar para a casa do Pai pela conversão, à medida que vive a intimidade com o Mestre, vai o discípulo chegar ao momento em que a transfiguração torna-se visível através de sua vida. A essa ‘visibilidade’ chama-se testemunho. Sobre isso, ao falar do testemunho de vida do “cristão ou de um grupo de cristãos”, magistralmente se expressou o Papa Paulo VI no número 21 da Evangelii Nuntiandi: “Assim, eles irradiam, de modo absolutamente simples e espontâneo, a sua fé... Por força deste testemunho sem palavras, estes cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os vêem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim? Por que eles vivem daquela maneira? O que é – ou quem é – que os inspira? Por que é que eles estão conosco?” Diante dessa pergunta, cada um de nós, discípulos de hoje, deveremos ter condição de responder ao Papa: porque eu estou esforçando-me para me transfigurar como o Cristo e, assim, ajudar o mundo e as pessoas a serem iluminadas por sua luz... Afinal, foi o próprio Senhor que nos deixou este conselho e esta ordem: “Vós sois a luz do mundo... Assim também brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que vejam as vossa boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 14.16).
3. Maria, a primeira transfigurada. Finalmente, ao refletir sobre a ‘Transfiguração’ do Senhor, fonte de inspiração para nossa busca de ‘transfiguração permanente’, não há como não lembrar, de maneira toda especial, da Mãe do Transfigurado: Maria elevada aos céus, a primeira transfigurada e modelo para nós. De fato, a transfiguração de Maria começa com o anúncio do anjo, ao receber no seu ventre virginal o Filho de Deus encarnado. De simples criatura passa a ser a mãe do Messias. Durante toda a vida, foi deixando-se modelar por Ele e identificar-se com Ele: na pobreza do presépio; na fuga para o Egito; no espanto diante do menino que largava a família para ‘cuidar das coisas do Pai’; na consideração demonstrada pelos que festejavam suas bodas mas precisaram, para dar continuidade à alegria, da mudança da água em vinho; na humildade diante da ausência de deferência humana por parte do Filho que disse que ‘todos os que faziam a vontade do Pai eram pai e mãe dEle’; no momento de dor dilacerante ao receber no regaço o corpo inerte do filho amado descido da cruz; na ocasião ímpar mas sem alarde da ressurreição; no momento definitivo da ascensão ao céu. Esteve ela, pois, sempre presente, em contínua “transformação, até tornar-se, ela mesma, para sempre transfigurada, elevada ao céu em corpo e alma! Ainda hoje, Maria, a transfigurada, como seu Filho, acompanha nossos passos de renúncia e de transformação pela conversão.
De que mais precisamos para buscar construir o Reino que Jesus inaugurou e cujo desenvolvimento herdamos como missão? Tendo o Cristo transfigurado como inspiração, meta e alimento e sua Mãe elevada aos céus como modelo e companhia, seguramente não chegaremos de mãos vazias ao porto definitivo ao qual nos levará nosso amor pelo Mestre.
Um abraço fraterno do sempre irmão e amigo
Pe.José Gilberto Beraldo
Assessor Eclesiástico Nacional MCC
E-mail: beraldomilenio@uol.com.br
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