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Carta MCC Brasil – Set/2006
“Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe:
Este menino será causa de queda e reerguimento para muitos em Israel.
Ele será um sinal de contradição
– uma espada traspassará a tua alma! –
e assim serão revelados os pensamentos de muitos corações” (Lc 2,34).
Queridos irmãos e queridas irmãs, meus generosos leitores (as):
Durante alguns anos, exerci as funções de pároco de uma fervorosa comunidade, no interior de São Paulo, cuja padroeira é Nossa Senhora das Dores. Foi lá que, de maneira muito especial, fiz a experiência diária de contemplar e aprofundar o mistério do sofrimento humano, tanto o físico - sempre o mais visível - como o moral - quase sempre oculto -, lembrando, sobretudo, o sofrimento na vida de um seguidor e discípulo de Jesus Crucificado. Mas, esse sofrimento seria mesmo um mistério? Seria, portanto, algo cujas razões a gente não chega a desvendar? Em cada manhã, ao entrar na igreja matriz, olhando para o grande retábulo do altar-mor, eu me encontrava com Maria, a Mãe das Dores, com o coração traspassado por uma espada e cuja festa a Igreja celebra neste mês de setembro precedida, aliás, pela recordação da Exaltação da Santa Cruz, memória do sofrimento redentor de Cristo. Aquela devota imagem ajudava-me a responder às mais elementares perguntas sobre o porquê do sofrimento humano e suas causas. Do mesmo modo, ensinava-me como assumir e, até, superar o sofrimento, uma vez que ele é inevitável na condição humana. De repente eu estava repetindo, no meu íntimo, a mesma pergunta: não seria o sofrimento um mistério?
Por isso, ainda que sem qualquer intenção de encontrar respostas para todas as perguntas – seria muita ousadia de minha parte! -, proponho alguns pontos que vejo como importantes. Claro que sempre à luz da fé cristã e da Palavra de Deus.
1. Porque o sofrimento? Quais suas causas últimas? – Conta o livro do Gênesis que, tendo pecado pela desobediência ao Criador que acabara de tudo fazer para a felicidade de sua criatura, nossos primeiros pais renunciaram livremente a ela. Depois de amaldiçoar a serpente, Deus disse à mulher: “Multiplicarei os sofrimentos de tua gravidez. Entre dores darás à luz os filhos”. E ao homem: “Com sofrimento tirarás dele (do solo) o alimento todos os dias de tua vida...Comerás o pão com o suor do teu rosto, até voltares ao solo, do qual foste tirado. Porque tu és pó e ao pó hás de voltar” (Cf Gn 3, 16). Penso que nada mais seria necessário acrescentar como resposta à pergunta sobre a origem do sofrimento, físico ou moral. Somos herdeiros da culpa e do pecado. Não é de Deus a culpa pelo sofrimento. O pecado, ruptura da criatura humana com seu Criador, este é a causa última do sofrimento. É preciso não esquecer que, no mesmo momento em que amaldiçoa a serpente, Deus Criador, mas, antes de tudo, Pai, promete que uma mulher esmagará a cabeça dela: “Porei inimizade entre ti e a mulher...”. Aqui já se prefigura Maria, a nova Eva. Pela dor e pelo sofrimento, ela, de maneira privilegiada, participará da nossa salvação, em perfeita sintonia com seu Filho feito carne para nossa redenção e libertação da escravidão do pecado.
2. Existem outras causas do sofrimento? – Existem e são inúmeras. E, como acabamos de refletir, para nós, iluminados pela fé, a não ser as causas externas independentes da vontade humana (como, por exemplo, fenômenos da natureza, deficiências genéticas, a morte natural, desvios de personalidade, etc.), as demais se originam naquela primeira causa, isto é, no pecado, na ruptura com o Deus da vida.
a) Quando você se queixa deste ou daquele sofrimento físico causado por doenças e males de toda sorte, – alguns chegam até, a sentirem-se abandonados por Deus ou creditam a Ele os seus próprios males – você já procurou buscar as causas nas suas próprias atitudes distantes do projeto de Deus? Não estariam elas, por exemplo, nos vícios e abusos– grandes ou pequenos – que tecem o seu cotidiano e cujas conseqüências são os males que afetam sua saúde, seu corpo, suas potencialidades físicas? Antes de dizer que Deus está sendo injusto, você já parou para pensar nos prejuízos causados à sua saúde pelo fumo, pelo álcool, pelo jogo ou pelos abusos nas mais variadas circunstâncias, presentes ou passadas, de sua vida e que podem provocar até a morte?
b) E o que dizer dos sofrimentos morais, internos, os sofrimentos do espírito, que só você conhece? E que, tantas e tantas vezes, são mais agudos do que os sofrimentos físicos? Por acaso, não provêem eles, quase sempre, da inimizade, do ódio, da falta de perdão, da ausência do espírito fraterno, do orgulho, da vaidade, do egoísmo, etc.?
3. Para um discípulo de Jesus, existem maneiras de superar o sofrimento ou de dar a razão dele?- Existem, sim. Aponto algumas:
a) Não é pelo sofrimento passivo. Chamo de “sofrimento passivo” o de alguém que se coloca quase como uma “vítima” de um Deus-juiz-que-castiga: “já que Deus quer assim, paciência...”, ou, “se tem que ser assim, que assim seja!”, ou, “o que foi que eu fiz para merecer esse castigo?” e outras expressões como estas.
b) Em contraposição a este, há o “sofrimento ativo”. O que é isso? É assumir decididamente a vontade de Deus: “Seja feita a Vossa vontade”...o que significa uma disposição interior de unir-se ao projeto do Pai tal como Jesus, naquela hora derradeira do Horto das Oliveiras em que por duas vezes repetiu sua súplica angustiante: “Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, seja feita a tua vontade!” (Mt 16,42.39; Lc 22,42). É ter consciência clara de que, assumindo plena e voluntariamente a vontade do Pai, você, assim unido a Cristo, o “Servo sofredor”, estará dando sua parcela de sofrimento para a salvação de toda a humanidade. Esta atitude leva a complementar a sua generosa participação através do sofrimento solidário.
c) O sofrimento solidário – em primeiro lugar, solidário com Cristo: “É assim que eu conheço Cristo, a forças da sua Ressurreição e a comunhão com seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se chego ressurreição dentre os mortos” (Flp 3,10). E mais: “Caríssimos, não estranheis o fogo da provação que lavra entre vós, como se alguma coisa de estranho estivesse acontecendo. Pelo contrário, alegrai-vos por participar dos sofrimentos de Cristo, para que possais exultar de alegria quando se revelar a sua glória” (1Pd 4,12-13). Depois, o sofrimento solidário com o próximo que sofre: “Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1Cor 12,26). E São Paulo aos Romanos: “Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram” (Rm 12,15).
Caros irmãos e irmãs, penso que estes poucos pensamentos bebidos na fonte puríssima da Palavra de Deus, poderão ajudar-nos a refletir sobre o mistério do sofrimento humano. Que Maria, a Virgem Dolorosa, nos mostre, pelo seu sofrimento, o caminho da cruz, ela que “recebeu a graça de cooperar mediante a resposta de sua fé numa salvação da qual é a primeira beneficiária”.
Até outubro, se Deus quiser! Para todos os caros leitores (as) o meu carinhoso abraço fraterno!
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Grande painel que, pintado e esculpido ou entalhado, é colocado como um pano de fundo atrás do altar servindo para ressaltar ou reproduzir a figura do (a) padroeiro (a) da comunidade católica.
Pe.José Gilberto Beraldo
Assessor Eclesiástico Nacional MCC
E-mail: beraldomilenio@uol.com.br
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