Cartas do Gen


Carta MCC Brasil março / 2004

"Sendo seus colaboradores,
exortamo-vos a não receberdes em vão a graça de Deus,
pois ele diz: "No momento favorável, eu te ouvi,
no dia da salvação, eu te socorri.
É agora o momento favorável,
é agora o dia da salvação" (2Cor 1-2)

Queridos irmãos e queridas irmãs internautas e cursilhistas do Brasil:

Quaresma, jejum, esmola, oração, penitência, preparação para a Páscoa - festa da Vida -, Campanha da Fraternidade: "Água - fonte da vida"... Tudo neste mês tem um denso sentido, sobretudo no que tange ao compromisso do cristão, principalmente o cristão católico que deseja viver intensamente este "tempo forte" de conversão, de volta para a casa do Pai: "É agora o momento favorável..."!

É preciso, porém, diante de tantas opções igualmente importantes e fundamentais, eleger um foco, uma motivação que nos ajude a refletir mais profundamente nesta quaresma. Pode parecer-lhes estranho, mas minha colaboração neste processo de conversão quaresmal tentará abranger tudo isso. Ofereço-lhes, pois, algumas considerações sobre o desperdício! Porquê? Vejam os porquês.

Primeiro porquê: nossa sociedade fortemente consumista conseguiu criar e fortalecer nos homens e mulheres modernos uma mentalidade e uma cultura de desperdício, de esbanjamento, de descarte. Quase tudo - até as pessoas e a sua dignidade humana - acaba sendo descartável. Instala-se, assim, um círculo vicioso: é preciso produzir muito; produzindo muito leva a consumir muito; o consumo exagerado é o caminho normal para o esbanjamento e o desperdício incontrolado. É este o mecanismo utilizado pelo deus-mercado para criar laços de escravidão e dependência. E esse deus implacável - enquanto a uns poucos privilegia concentrando-lhes nas mãos as riquezas e os bens que são de todos - a outros lança na miséria e na marginalidade. Assim, a fome e a privação destes é conseqüência da saciedade pecaminosa, porque injusta, daqueles!

Segundo porquê: deixamo-nos envolver facilmente por esta mentalidade. Nesse sentido, os meios de comunicação modernos fazem um excelente trabalho! De tal modo introjetamos idéias e convicções que acabamos não só por aceitar como, sobretudo, por praticar o desperdício. Afinal, pensamos, isto é um mal necessário na "sociedade-de-consumo-que-está-ai". E o desperdício, o esbanjamento, o consumismo passam a fazer parte do cotidiano das pessoas, sem que elas se dêem conta da gravidade de tais práticas. É mínima a preocupação em preservar, moderar, viver com uma certa austeridade, respeitar o direito do outro de usufruir os mesmos bens que Deus concede a todos. Só um exemplo, já que estamos na Campanha da Fraternidade 2004 "Água, Fonte da Vida": quanta água é desperdiçada, poluída, jogada fora inutilmente todos os dias e, até, muito perto de nós, sem que nada digamos ou façamos coibir esse esbanjamento? A água vai ficando cada vez mais escassa: 1,5 bilhão de pessoas no mundo sofrem de escassez de água. E embora estejamos todos sabendo disso, lavamos a calçada na frente de nossas casas e, até o automóvel, com o esguicho totalmente aberto! Desde criança minha santa mãe me ensinou a recolher com cuidado o pedaço de pão eventualmente caído no chão e a beijá-lo com respeito. Costume que conservo até hoje, pois tenho ainda fixas na memória suas sábias palavras: "Filho, não se desperdiça um dom de Deus que é o pão e que muitos não têm!"

Terceiro porquê: essa mentalidade penetra sorrateiramente - ou nem tanto - na prática da vida cristã. A começar pela facilidade com que desperdiçamos a graça com que Deus nos presenteia desde o dia do nosso batismo... Não é verdade que tantas e tantas vezes "recebemos em vão a graça de Deus?" Não é verdade que esbanjamos inutilmente o tesouro da vida divina que Ele coloca em nossas mãos? Não é verdade que, em vez de ser construtores de uma sociedade justa e solidária, somos criadores de obstáculos ao Reino de Deus? Praticar a injustiça, omitir-se na fraternidade e na solidariedade, negligenciar a oração e a palavra de Deus, negar-se ao perdão e ao acolhimento, não valorizar os carismas pessoais desvalorizando os dos outros, a isto e a outras omissões que permeiam a vida da gente, pode-se chamar desperdício.

Portanto, irmãos e irmãs amáveis leitores, diante destes "porquês" é fácil entender o porquê do espírito de penitência que, numa moderna interpretação, seria a contenção do esbanjamento, a moderação no consumo, a austeridade no comportamento. Contenção, moderação, austeridade e renúncia que não significam tristeza e, muito menos, alienação mas sim, solidariedade, zelo pelos dons de Deus, cuidado pela preservação da natureza e participação ativa nos mutirões para "superação da fome e da miséria!". Os santos, os místicos - os antigos e os modernos - chamariam isso de "ascese". Não seriam necessários outros heróicos jejuns ou austeras abstinências para se viver um autêntico espírito quaresmal!

Para todos, uma santa quaresma e consciente Campanha da Fraternidade!
"Sendo seus colaboradores, exortamo-vos a não receberdes em vão a graça de Deus".

Até a Páscoa, a festa da vida, se Deus quiser!

Pe.José Gilberto Beraldo

E-mail: beraldomilenio@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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