BOLETÍN MENSUAL
Organismo Mundial
de Cursillos de Cristiandad

Queridos amigos,                                                                                           01april de 2009

Que a paz e o amor de Nosso Senhor estejam sempre convosco! 

      I – Actualidade

      No boletim de Março, como numa verdadeira Reunião de Grupo, uma Reunião de Amigos, Juan Ruiz e sua esposa, Conchita, partilharam um “Momento muito próximo e Cristo” ao partilharem a sua experiência de servir nos Cursilhos que coincidiram com o aniversário do seu casamento e o fim de semana da amizade. E desta vez, com o mesmo espírito de Reunião de Grupo em que podemos partilhar momentos próximos de Cristo, êxitos e fracassos apostólicos, a nossa Piedade. Estudo e Acção, as nossas tristezas e alegrias, entre outras coisas, Juan Ruiz sente necessidade de partilhar uma grande tristeza que teve com a doença de sua esposa, Conchita, durante o mês de Março, e à qual se associaram tantos amigos de todas as partes do mundo. Como diria Eduardo Bonnin Aguiló, “o amigo é como o sangue: aparece ao primeiro arranhão”.

      “Alguns dias depois de servir como Reitora no Cursilho de Senhoras, a minha esposa, Conchita, começou a sentir-se mal com o que parecia ser apenas uma simples constipação. Ao cabo de alguns dias piorou e tinha muita dificuldade em respirar. O médico detectou-lhe algum líquido num pulmão e depois de lhe receitar alguns medicamentos mandou-a regressar a casa. Passados mais alguns dias a dificuldade em respirar aumentou muito e fomos a nova consulta médica, em que se detectou que o pulmão já estava quase cheio de líquido. E como era do mesmo lado a que foi operada ao cancro, pensaram que estava novamente com cancro e mandaram-na imediatamente para o hospital. Esta notícia alarmou-nos muito e pedi imediatamente a todos os amigos que rezassem por minha mulher. Depois de muitas análises, verificaram que não era cancro mas uma pneumonia que tinha infectado, e operaram-na para esvaziar os pulmões. Foi uma situação que lhe causou muito sofrimento e eu sentia-me enlouquecer por não poder fazer mais nada senão rezar continuamente. E ainda que a doença fosse muito grave, dei graças a Deus por não ser novamente cancro. Agora já está em casa e eu continuo a fazer-lhe os tratamentos, até que Deus lhe conceda uma completa recuperação. Como podem verificar, graças a estas orações, até em médico me transformei.

Sentia necessidade de partilhar esta vivência no boletim mensal do OMCC porque queria agradecer às centenas de amigos Cursilhistas, de todas as partes do mundo, que me enviaram mensagens com orações e expressões de solidariedade, nesses momentos de angústia. E com isto confirmo novamente o poder da amizade e que a oração continua a ser a nossa força e a fraqueza de Deus.

      E falando do poder da amizade e incluindo o espírito de trabalho em equipa, no mesmo período de tempo eu tinha o compromisso de participar em três Ultreias Regionais, em Santa Maria, Oxnard e S. Fernando, na Califórnia, USA, mas Marybel Gomez, secretária do Comité Executivo do OMCC, apesar de estar muito ocupada com a preparação da IV Ultreia Mundial, substitui-me em cada um destes compromissos.

      Bendito seja Deus pela amizade e pela Sua debilidade perante tantas orações. Mantenhamo-nos sempre unidos na Eucaristia e acudamos ao amigo, «como o sangue, ao primeiro arranhão».” 

      Acerca da IV Ultreia Mundial – “A beleza de ser cristão e a alegria de o comunicar”:

O comité executivo do OMCC continua a trabalhar afincadamente na logística da organização deste magno evento, na coordenação da Reunião da Comissão de Ideias Fundamentais, Reunião do OMCC e Encontro do GLCC, todos nos dias anteriores à IV Ultreia Mundial. Pedimo-vos muita oração e continuamos a insistir para que comprem rapidamente os bilhetes e façam as vossas reservas de viagem para que possam tomar parte nesta histórica oportunidade de nos saudarmos pessoalmente e viver e conviver, ao vivo e em directo, a beleza de ser cristão com amigos de todas as partes do mundo. 

      II – Estudo do Carisma: VII Parte

      ESSÊNCIA E FINALIDADE DO MCC

      “DOU-VOS UM MANDAMENTO NOVO: Que vos ameis uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13, 34).

      “O vosso Movimento pede-vos que sejais fermento na “massa” do mundo … actuando no mundo” (Papa João Paulo II).

      Estamos perante duas palavras ligadas, “Essência” e “Finalidade” numa mesma exposição pela sua íntima ligação dentro do Carisma dos Cursilhos.

      1– Por “essência”entende-se o “permanente e invariável das coisas”, “aquilo que o ser é”, “o necessário, o indispensável, a MEDULA da coisa”. Podem mudar as circunstâncias duma coisa, mas a identidade do núcleo interno, a essência, mantém-se sempre. A essência duma coisa é imutável.

      A essência da Igreja é Jesus Cristo. Nas palavras de Romano Gardini, “Cristianismo não é, em última análise, nem uma doutrina da verdade, nem uma interpretação da vida. Também é isso mas nada disso constitui a sua essência nuclear. A sua essência é constituída por Jesus de Nazaré… “

      A essência do Movimento dos Cursilhos de Cristandade é, portanto, Jesus Cristo, por ser um movimento de Igreja.

      Numa análise mais detalhada, os Cursilhos de Cristandade baseiam a sua essência na Boa Nova do Amor de Deus. E, mais exactamente, pode sublinhar-se que a essência dos Cursilhos é a Boa Nova de que “Deus me ama”, concretizada na peculiaridade da “vivência do fundamental cristão”.

      O amor de Deus, ainda que seja sempre actual, não é algo da “actualidade”. O Amor é sempre a essência de Deus. Tanto no Antigo como no Novo Testamento. Deus deu sempre mostras do seu Amor pelas pessoas. No Antigo Testamento, o seu Amor aparece, continuamente, desde a criação. O Arco Íris, o Mar Vermelho, o Maná, as Tábuas, até tantos “gestos” cuja tradução reflectem actos de Amor, apesar dos opróbrios e “desprezos” que Deus recebe continuamente. O mesmo acontece no Novo Testamento.

      Cristo traz à terra uma Nova Aliança. Nova porque “aclara” mais, se é possível, o Amor que Deus nos tem (1Jo 4, 8 e 16). “Dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 13, 34).

      É um amor de pessoa a pessoa. Vendo Cristo na pessoa e a pessoa em Cristo.

      “Saulo ouviu uma voz que lhe dizia: Porque me persegues?

      E perguntou: Quem és tu, Senhor?

      Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (Act 9, 4-5)

      Cristo muda o sentido da realidade e dos valores. É possível viver em amizade! Esta é a mensagem de Cristo.

      Depois acontece… que passam vinte séculos em que se fala mais de Cristianismo que de Cristo. Há mais preocupação com o “adjectivo” (actos exteriores apelativos de fé, paixão, sacrifício) que com o “nuclear”, o substancial, o essencial: o Amor. A estrutura sobrepõe-se à mística. Sobrepunha-se a “humilhação” e o arrependimento do filho pródigo à beleza da ternura do pai bom, abraçando o filho encontrado.

      Com o nascimento do século XX produz-se um “ressurgir” a partir de baixo, da secularidade, a partir de onde as coisas necessitam, evidentemente, de ser simples. Começa a perceber-se, novamente, a mensagem do AMOR DE DEUS. E isto não é novo. Provoca apenas uma forma “nova” de ver as coisas de sempre, dando a conhecer a todos que DEUS NOS AMA.

      Assim surge o carisma dos Cursilhos, com força e para dar vida.

      O Espírito Santo tinha lançado, sobre o mundo, uma onde de esperança. Por conseguinte, a essência dos Cursilhos é:

      - a realidade do Amor

      - a realidade da Amizade

      - a realidade de que Cristo é meu Amigo

      - a Boa Nova de que Deus, em Cristo, me Ama. 

      II. –

      Toda a mensagem tem um destino. Esse destino é o que dá sentido à mensagem.

      A Finalidade é “o objectivo” do para que se faz uma coisa, o destino da Essência. 

      A finalidade do carisma dos Cursilhos dirige-se à PESSOA.

      Para que todas as mulheres e homens do mundo saibam a Boa Nova de que “Deus, em Cristo, me ama”. Com a particularidade de que, ainda que se destine a todos, destina-se, de uma forma especial, aos afastados. E esse destino leva-se a cabo através de testemunhos de amizade.

      Esta finalidade consegue-se “FAZENDO CRISTÃOS PARA EDIFICAR A CRISTANDADE”.

      Fazer cristãos é procurar, com toda a nossa fé, que todos os baptizados sejam:

            - SANTOS, vivendo em graça, caminhando em sintonia com a Igreja;

            - APÓSTOLOS, desvelando-se para que Cristo viva em todos;

            - HOMENS, com personalidade profunda e incisiva na normalidade;

            - DO SEU TEMPO, ao ritmo das suas necessidades e exigências.

      Edificar cristandade consiste em “Despertar todo o Corpo Místico”.

      Esta finalidade dos Cursilhos orienta-se para a fermentação da vida ordinária.

      Fermentar, num sentido simples, digamos assim, quer dizer desfazer-se para crescer.

      Esse fermentar, na óptica dos Cursilhos, implica três tempos ou pontos essenciais: quem, como e para quem.

      Na perspectiva em que falamos, esse ou esses “quem” que hão-de fermentar e levar o fermento somos nós.

      Na perspectiva em que falamos, o “como” só conhece um caminho ou método: a amizade.

      Na perspectiva em que falamos, o para quem, o destino do fermento é a vida ordinária.

      Na vida ordinária, o “destino” do fermento tem um “a quem” e um “onde” muito concretos.

      Sem qualquer dúvida, é evidente que todas as pessoas hão-de saber que Deus as ama. Todas as pessoas hão de desfrutar do amor de Deus. E entre todas as pessoas do mundo, a atenção do Carisma dos Cursilhos dirige-se de forma especial aos afastados. Aos que estão afastados do Senhor.

      Mais ainda, a finalidade dos Cursilhos consiste em levar a Boa Notícia do Amor de Deus aos afastados do Senhor, mas com uma peculiaridade ou matiz. Essa peculiaridade ou matiz apoia-se no “onde”. E esse “onde”, a que se alude, é a vida ordinária, que, em chave de Cursilhos, não é outro lugar senão os ambientes em que cada um vive.

      O fim essencial dos Cursilhos é, pois, criar um mundo de amigos, no seu lugar.

      É criar um mundo de amigos no seu ambiente.

      E o objectivo desta finalidade pode considerar-se centrado em três conceitos:

      Afastados, Ambientes e Amizade. 

      AFASTADOS

      Afastados são os que não têm fé ou não sabem se a têm, porque vivem absorvidos pelas coisas que julgam importantes, mas que não os enchem.

      Afastados são essas pessoas que não sabem que Deus as ama.

      Afastados são os que não estão informados, ou estão mal informados, ou estão desinformados.

      E estão afastados porque ninguém lhes falou de Deus ou porque não quiseram escutar. Ou, talvez, porque o que lhes chegou, não foi em linguagem e estilo próprios para eles. E, por consequência, com estes homens e mulheres, acontece, simplesmente, que não têm fé, ou que não sabem se têm fé, ou que não querem ter fé.

      Estas pessoas vivem nos seus ambientes e nunca saberão que Deus as ama, porque não frequentam as paróquias, ou, se o fazem, é pontualmente, para dar satisfação a algumas “solicitações” sociais: casamentos, baptizados, comunhões, funerais… ou por certas recordações que guardam. Mas não têm ouvidos para ouvir, ou não entendem ou não querem entender, ou, simplesmente, não querem ouvir. É evidente que não participam nas actividades paroquiais nem recebem os sacramentos. Vegetam, espiritualmente, na massa do mundo.

      A solução está em ir semeando e espalhando a fome de Deus no mundo, mas sem propor nenhuma meio específico para a saciar. Apenas para seu bem.

      Estes homens e mulheres tomarão conhecimento da Boa Nova, saberão que Deus os Ama, apenas se alguém lho disser. Se alguém for ao seu círculo quotidiano de vida, à sua “massa”. 

      AMBIENTES

      A “massa”, o “lugar”, o “ambiente” é o campo de trabalho da finalidade do Movimento dos Cursilhos.

      Fermentar os ambientes, os rincões da vida quotidiana, que são o escritório, a oficina, o bar, o campo de jogos, a praia, a escola, a faculdade, o táxi, o comboio, e todos os lugares de cada posto que as pessoas ocupam, no seu concreto dia a dia.

      Esses homens e mulheres a quem, através dum Cursilho, se provocou a fome de Deus, hão-de permanecer nos seus lugares. Não devem ser tirados das suas realidades e levados a trabalhar numa realidade diferente daquela em que estão, por muito boa que seja.

      O Cursilho não é para isso. Não. Não é isso.

      As pessoas, homens e mulheres, que captaram a simplicidade da mensagem, hão-de permanecer na sua realidade, no seu próprio ambiente, fermentando Cristiania1 por meio da amizade com aqueles com quem convive: família, trabalho, ócio. Locais onde os sacerdotes não chegam porque o seu trabalho tem outros confins.

      Em muitas cidades importantes costuma haver um jardim zoológico, onde se costumam ter, enjaulados, alguns animais ferozes e selvagens. É vulgar ver leões, panteras, tigres, etc. Normalmente estes animais, na sua reclusão forçada, foram perdendo todas as suas características peculiares. E o que ali se vê, é um leão que já não é leão, um tigre que já não é tigre. Talvez tenha sido leão, mas, actualmente, perdeu grande parte da sua essência.

      O que o Movimento dos Cursilhos de Cristandade pretende não é enjaular ninguém em lugar nenhum, mas baptizar a selva.

      A finalidade do Movimento dos Cursilhos de Cristandade “não está orientada para alimentar as estruturas eclesiais” (Vertebración de Ideas), mas apenas para criar um mundo de amigos, edificando Cristiania, mas nos ambientes naturais.

      O Papa João Paulo II aponta aos cursilhistas a finalidade dos Cursilhos: “O vosso Movimento pede-vos que sejais fermento na “massa” do mundo… actuando no mundo.” 

      AMIZADE (Testemunho)

      Estes homens e mulheres precisam de alguém que vá aos seus ambientes dizer-lhes que Deus os ama. Só assim o saberão.

      Os afastados escutarão quem vá dizer-lho, mas só escutarão a quem for, se se apresenta e actua com AMIZADE. Em atitudes desprendidas de egoísmo, … em gestos cheios de amor.

      Além disso, estas pessoas a quem se dirige a finalidade dos Cursilhos, necessitam der ser amadas como Deus ama, isto é, tal como são, não como nós desejaríamos que fossem.

      Os afastados captam, geralmente, a identificação entre a sua ânsia de felicidade e a vida de Cristo, se a vêem concretizada noutros que sejam do seu ambiente e que os tratam como amigos, porque “o homem de hoje escuta mais facilmente as testemunhas que os mestres” (Paulo VI).

      O convite de Jesus quando diz “Ide!”, dirige-se a TODOS.

      “Designou outros setenta e dois e enviou-os dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e aldeias onde havia de ir” (Lc 10,1-12).

      Estes setenta e dois discípulos eram, provavelmente, todos os que ele tinha reunido até esse momento, ou pelo menos, todos os que o seguiam com uma certa regularidade.

Nós, leigos, somos os sucessores desses setenta e dois…

      E Jesus enviou-os dois a dois, para incutir a caridade, como sublinhou São Gregório Magno “nisto conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35).

      A finalidade imediata dos Cursilhos é dar conhecimento, convencimento, vivência e convivência do Fundamental Cristão, expandindo-o nos ambientes, na “massa” do mundo onde se vive a vida ordinária.

      Havemos de nos aproximar das pessoas, dando testemunho de amizade, para que se encontrem com Cristo. Sem pretender tirá-las dos seus locais para as levar para outros. Será a única forma pela qual os afastados nos poderão receber.

      Havemos de continuar a criar amizade entre as pessoas com quem nos encontremos no metro quadrado móvel em que o Senhor nos colocou, para que todos, especialmente os afastados, saibam que Deus nos ama.

      Como sempre, despedimo-nos pedindo a Nosso senhor que nos mantenha unidos no Seu amor e amizade.

      De Colores,

      Juan Ruiz – Presidente OMCC  

      III – Um comentário do nosso Director Espiritual

      Com a celebração anual da Páscoa, os judeus renovam a sua percepção de duas identidades:

            - a de Deus (“Eu sou o vosso Deus”)

            - a de si próprios como Povo Eleito (“Vós sereis o meu povo”).

      Toda a vida judaica se baseia nestas duas identidades. O “acto fundacional” do Êxodo celebrou-se na palavra e no ritual.

      Como cristãos preparamo-nos para celebrar o acto fundacional do “Êxodo Cristão” do mistério pascal no tríduo de Quinta e Sexta-feira Santas e na Vigília Pascal. A renovação das promessas do Baptismo ajuda-nos a aprofundar a nossa compreensão da nossa identidade cristã recordando a essência fundamental da proclamação do Evangelho:

      - “Arrependei-vos” (Renúncia ao pecado)

      - “Acreditai no Evangelho” (Profissão de Fé).

      Este mês, à medida que continuamos o nosso estudo dos Cursilhos, debruçamo-nos sobre a essência do Movimento. “Essência” é a identidade dum ser em si mesmo. É necessário conhecer e compreender a nossa identidade, para lhe sermos fiéis. Muitos desvios surgiram por causa desta falta de compreensão da própria identidade do Movimento dos Cursilhos.

      Em meados de 1970, iniciei uma viagem que durou vários meses, para conhecer as diferentes comunidades religiosas, nos Estados Unidos e no Canadá. Para minha consternação e decepção, muitas destas comunidades não estavam seguras da sua identidade (tratava-se de um tempo de transição rápida, na vida religiosa). Destaca-se um encontro no Médio Ocidente dos Estados Unidos. Como tinha feito noutras visitas a representantes das comunidades religiosas, fiz-lhes três perguntas: “O que é que distingue a sua comunidade das outras comunidades?” “Como é que a sua comunidade vive o carisma do seu fundador?” e “Por quê deveria eu entrar nesta comunidade e não noutra?” O responsável pelas vocações, visivelmente incomodado, respondeu sarcasticamente: “ Que tipo de perguntas tontas são essas? E acrescentou, de imediato: “Estamos a fazer as mesmas coisas – deveríamos fundir-nos com muitas outras comunidades religiosas”. Despedi-me, imediatamente, dizendo que “muitos outros estão a fazer as mesmas perguntas” e que não contasse comigo, no futuro, porque me não sentia atraído por uma comunidade que estava insegura quanto à sua própria identidade.

      Uma forma de entender a identidade (essência) dos Cursilhos é como uma lente que ilumina a consciência da nossa identidade como pessoas amadas por Deus. Este amor é proclamado, celebrado e vivido no nosso crescimento nos três encontros de amizade – com Deus, com os outros e connosco próprios. Toda a “vida” dos Cursilhos gira à volta destes três eixos. Se falta algum destes três elementos, o tripé da experiência do amor de Deus cai. (O amor de Deus por nós é constante – Deus que é amor é fiel à sua identidade).

      Amizade autêntica que não “manipula” as pessoas é atractiva e, por este simples facto, evangeliza. Em Actos 15, surge uma tensão entre Paulo e Barnabé a propósito do desejo de Barnabé de levar com eles o seu primo João Marcos, que, anteriormente, os tinha abandonado na Panfília. O desacordo que se estabeleceu foi tão forte que ambos se separaram. Barnabé tomou com ele Marcos e navegou para Chipre. Paulo, por sua vez, escolheu Silas e iniciou a sua viagem…Viajou para a Síria e Cilícia (Act 15, 39-41). Estou convencido de que Paulo e Barnabé continuaram a amar-se e a respeitar-se como irmãos no Senhor, mas deram-se conta de que a tensão entre eles seria perceptível e poderia ser um obstáculo à eficácia da evangelização.

      Em 1993 (quando viajava para o Encontro Nacional de Cursilhos dos EEUU) fui vítima de assalto à mão armada. Só perdi USD 20,00, mas o dano maior estava feito pelo roubo da identidade (documento de identificação). A minha identidade (identificação) foi usada para a compra de 3 automóveis e um condomínio. Não fiquei totalmente ilibado (não considerado responsável) senão em 2002.

O enfoque, o “alvo” dos Cursilhos é o “afastado”, o que desconhece ou até repele o amor de Deus. Temos que reconhecer que cada pessoa tem necessidade de crescer no reconhecimento do amor de Deus, mas muitas pessoas com as quais nos encontramos no dia a dia, têm um grande défice desta tomada de consciência da magnificência do amor de Deus, que se fez um de nós, na pessoa de Jesus Cristo. Não amar o “afastado” como Deus o faz, tal como ele ou ela realmente é, é, com efeito, “o roubo da identidade”. Nós roubamos-lhes a sua identidade como pessoas que são amadas por Deus. Os Cursilhos pretendem recuperar esta perda de identidade. Em Jo 8, 1-11, Jesus amou a mulher adúltera, tal como era, respeitando a sua identidade e, nesse amor, dá-lhe a faculdade de ser mais e de ser capaz de responder ao “Vai e não voltes a pecar”.

      Juan Ruiz, no seu comentário deste mês, afirma que o Cursilho está orientado para ser levedura na vida ordinária (pelo amor de Deus concretizado em amizade). Ainda que falemos a miúdo de alentar todas as pessoas a que “floresçam onde estão plantadas”, ainda costuma haver a tentação de “transplantar” estas pessoas para os nossos ambientes preferidos. O “transplante” literalmente significa arrancar uma planta e replantá-la em lugar diferente. Por exemplo, uma palmeira da Florida, não cresce naturalmente em Nova Iorque. O clima e o solo são inóspitos para a palmeira. A palmeira não pode viver num meio ambiente que não é o seu. Da mesma forma “as pessoas transplantadas” não vão prosperar num ambiente artificial. Esta “migração forçada” dos “afastados” (ou de qualquer outra pessoa) para o nosso meio preferido seria semelhante a uma violação dos direitos humanos.

      Depois de uma séria de tragédias em que estiveram implicados dirigentes da paróquia em que sirvo, um par de membros do pessoal da paróquia e eu estávamos a discutir como revitalizar as organizações da paróquia, face à morte e doença da maioria dos dirigentes leigos da paróquia. Sugeri que cada grupo estudasse a sua identidade e carisma particulares a fim e atrair novos membros. “Como podemos promover o que não entendemos?” Esta frase tornou-se a base desse trabalho.

      O tríduo Pascal, convida-nos, como Igreja, a renovar a nossa identidade. Este novo entendimento deveria tornar-se atractivo para muitos que andam à procura ou não sabem que têm uma inata fome de Deus. À medida que se persiste no estudo do Carisma dos Cursilhos, também nós, cada vez mais, nos tornamos “magnéticos” atraindo os “afastados” e outros com quem nos deparamos, na nossa vida diária, para que “venham e vejam… Deus ama-te”

      De Colores,

      Pe. David Smith, Assessor Espiritual – OMCC.  

Tradução: G Silva – MCC Santarém

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