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ORGANISMO MUNDIAL DOS CURSILHOS DE CRISTANDADE
BOLETIM MENSAL – 08 DEZEMBRO 2008
Que a paz e o amor de Nosso Senhor estejam sempre convosco!
I. Eventos e informação actual
Neste boletim de Dezembro voltamos a usar o nosso formato de três partes.
No mês de Novembro tivemos três magníficas oportunidades de servir os nossos amigos cursilhistas. A primeira foi de 6 a 9 de Novembro nas Ilhas Saipan. (Arquipélago das Marianas - Pacífico). A segunda, de 7 a 9 de Novembro, na Ultreia Nacional de Celaya – México. A terceira, no dia 22 de Novembro, na inauguração da “Casa de Cursilhos Eduardo Bonnín Aguiló” na Arquidiocese de Los Angeles.
Na oportunidade de servir nas Ilhas Saipan, Juan Ruiz participou no 20º Encontro do Grupo Internacional Asia-Pacífico. Foi um verdadeiro encontro de amizade de todos os países do Grupo Ásia-Pacífico onde se pôde confirmar, ao vivo e em directo, que sem que importe a língua e/ou a cultura, a mensagem dos Cursilhos “Deus, em Jesus Cristo, ama-nos” transmitiu-se novamente através do melhor veículo que continua a ser a amizade. Também (o encontro) confirmou uma vez mais que o Carisma vem do Espírito Santo e que, sem mudar uma vírgula ou um ponto da sua metodologia original, continua a ser tão eficaz como no primeiro Cursilho de Cristandade.
Neste encontro do Grupo Ásia-Pacífico também foi escolhida a Austrália como país para o qual passará a sede do OMCC, a partir de Janeiro de 2010 e foi reeleito o Vietname da Diáspora para coordenar o Grupo Ásia-Pacífico até ao final de 2014, coincidindo com o término do (mandato) do OMCC. Agora já todos os mandatos dos Grupos Internacionais coincidem com os do OMCC. Felicitamos ambos os países que podem contar, desde já, com as nossas orações e com todo o apoio que, como sede cessante, lhes possamos dar. De facto far-se-á a transferência da sede na IV Ultreia Mundial de Anaheim, em 1 de Agosto de 2009, que se tornará efectiva a partir do início de 2010, para podermos trabalhar em conjunto durante quatro meses e manter uma continuidade.
Na segunda oportunidade de serviço, Maribel Gomez e o Pe. David Smith participaram na Ultreia Nacional de Celaya, México, e esta foi uma vivência da Graça de Deus, onde o Movimento dos Cursilhos se tornou muito visível pela forma eficaz como conseguiu penetrar na vida civil. Antes de chegar a Celaya, Maribel Gomez e o Pe. David Smith fizeram uma visita ao Cardeal Juan Sandoval Iñiguez, nosso Assessor Episcopal, para o convidar a ser o Celebrante Presidente da IV Ultreia Mundial. Aceitou com muito gosto. Daí partiram imediatamente para Guanajuato, para a Ultreia Nacional do México, onde desfilaram mais de 20 000 cursilhistas de todo o México pelas ruas de Celaya vestidos às cores (de colores) e com trajes folclóricos, para dar início a dois dias de Graça. Inauguraram o evento vários dignitários, incluindo o Bispo da Diocese de Celaya, D. Lazaro Perez Giménez, o Governador do Estado de Guanajuato, Juan Manuel Oliva e o Núncio Apostólico, D. Christoph Pierre.
Incluíam-se, entre os que partilharamram vivências, o Presidente do Secretariado Nacional de El Salvador, António Punyed. Ao longo dos dois dias viveram o amor que vibra no México pelo seu amor a Cristo, à Sua Igreja e a Sua Mãe, Maria. Ocorreu a mudança de sede de Morelia para Yucatán e a XX Ultreia Nacional terminou com a celebração da Santa Missa.
Na terceira oportunidade de serviço, Maribel Gomez e Juan Ruiz tiveram a honra de participar na inauguração da “Casa de Cursilhos – Eduardo Bonnín Aguiló”, o primeiro lugar do mundo designado em sua memória. Isto aconteceu na sua própria arquidiocese de Los Angeles, Califórnia, EUA. O Cardeal Roger Mahony, Arcebispo da referida Diocese, benzeu as duas capelas da Casa de Cursilhos com os nomes de São Tiago e São Paulo e celebrou a Santa Missa com cerca de mil pessoas representando os sete grupos culturais (Espanhóis, Anglo-saxónicos, Vietnamitas, Coreanos, Portugueses, Chineses e Filipinos) que constituem o Movimento dos Cursilhos na Arquidiocese de Los Angeles.
II – Estudo do Carisma: V Parte
No boletim de Fevereiro dizia-se que um Carisma é “um dom que Deus dá a quem quer, não para quem o recebe, mas para que dele beneficie toda a comunidade e a Igreja”.
Esse dom outorgado pelo Espírito é, portanto, “para o bem de todos”, (1Cor 12, 7) para o “bem comum” Ou seja, que há-de estar “ao serviço dos outros” (1Pd 4, 10). Como em qualquer dos Movimento Eclesiais, esta característica encontra-se concretizada no Carisma dos Cursilhos de Cristandade.
O Movimento dos Cursilhos de Cristandade nasceu em Maiorca, na década de 40 do século XX, mas a mensagem presenteada não podia ficar na pessoa que a recebeu. Teve imediatamente foros de catolicidade. Era urgente levar a mensagem de Cristo a todos.
“Quando ‘assentei praça’ (ingressei no serviço militar), são palavras de Eduardo, e me relacionei com uma infinidade de pessoas, cada uma com um carácter diferente, compreendi que Deus as amava. Comecei então a interessar-me por lhes dar a conhecer esta realidade”.
O fogo, que se acendeu em Maiorca, propagou-se imediatamente até chegar a todos os rincões do mundo:
Em 1951 e 1953, falou-se de Cursilhos em Salamanca e Roma.
Em 1953 o Pe. Samiento dirige um Cursilho “sui generis”, para mulheres, na Colômbia. E realizou-se um Cursilho no Santuário de S. Miguel de Lliria, em Valência.
Em 1954 dão-se Cursilhos em El Espinarde Segóvia, Onteniente, Tarragona e Toledo, com a presença, aqui, de Manuel Aparici.
Em 1955 celebrou-se um Cursilho em Roma
Depois o Movimento dos Cursilhos de Cristandade chega à Bolívia e Estados Unidos (1957); Peru e México (1958); Venezuela (1959), - ainda que se tenha celebrado um, preliminar, em 1958; o primeiro Cursilho de Africa celebrou-se na ilha de Fernão Pó (1960); em Porto Rico em 1961; chegam à Austrália e ao Chile (1963); ao Peru em 1964; à Alemanha (1965) e ao Vietname do Sul e Coreia (1967).
Todo o mundo pôde desfrutar do dom que Deus quis outorgar através dos Cursilhos.
Os homens e mulheres cursilhistas procuram levar a todos os ambientes a Boa Nova de que Deus os ama, fermentando, com o seu testemunho de amizade, o metro quadrado móvel em que o Senhor os quis colocar. O arco-íris “DE COLORES” que brilha no céu dos corações, é testemunho fiel de que o Movimento dos Cursilhos de Cristandade “percorre com carta de cidadania os caminhos do mundo”. (Roma, I Ultreia Mundial, 1966).
Só falta fazer um Cursilho na Lua. E … “estamos nessa”!!!
RECONHECIDO PELA HIERARQUIA
Mencionava-se, no boletim de Fevereiro, como quarto elemento dos Carismas, o reconhecimento pela hierarquia. O Movimento dos Cursilhos foi reconhecido pela hierarquia, desde o seu início.
Foram muitos os sacerdotes que deram apoio espiritual e de facto aos Cursilhos, apoiando desde o primeiro dia. A presença e o trabalho dos mesmos não aparecerá em letra de imprensa, mas o melhor reconhecimento é o que Deus põe nos corações. São tantos que uma lista podia conter algum esquecimento e o nome de muitos não é melhor que a ausência dum único.
O primeiro reconhecimento hierárquico dos Cursilhos cabe, sem dúvida, a Mons. Hervás, a quem se deve o reconhecimento áureo. O Bispo D. Hervás apercebeu-se, de imediato, das novidades que pululavam no céu maiorquino e interessou-se imediatamente por elas. Entusiasmou-se com os cursilhos que se realizavam na sua diocese de Maiorca, e abençoou, com as duas mãos, o presente que o Senhor tinha dado ao mundo, através do Carisma dos Cursilhos. Na assembleia realizada em Novembro de 1949, perante a insistência dos cursilhistas presentes, exaltou os Cursilhos com um reconhecimento espiritual, proclamando um louvor para sempre: “Quero responder a uma questão que foi aflorada várias vezes nesta reunião: a dos Cursilhos. Queridos jovens: abençoo-os e aprovo-os. E abençoo-os, … não apenas com uma… mas com as duas mãos” (20 Novembro 1949, Assembleia de jovens da Acção Católica, Cursilhistas).
“A partir deste momento os Cursilhos foram mais Cursilhos”, disse, num grito de entusiasmo, Eduardo Bonnín.
Esta bênção com “as duas mãos”, a sucessão ininterrupta de tantos cursilhos e os milagres de conversão que provocaram em milhares de cursilhistas, impulsionou a Hierarquia Eclesiástica a elogiar, louvar e bendizer o Carisma do Movimento dos Cursilhos de Cristandade, reconhecendo o grande trabalho apostólico que se realizava através dos seus membros.
O Cardeal Arcebispo de Terragona, D. Benjamim de Arriba y Castro, chegou a afirmar que os Cursilhos acabaram por ser “uma das sensações mais fortes da minha longa vida”.
Paulo VI reconheceu o Carisma dos Cursilhos perante os Cursilhistas reunidos à sua volta e para conhecimento de todo o mundo.
“Cursilhos de Cristandade, palavra que percorre com carta de cidadania os caminhos da Igreja e do mundo” (Roma, I Ultreia Mundial, 28 de Maio de 1966).
A fé do Papa no Movimento dos Cursilhos de Cristandade levou Sua Santidade a exclamar, num grito de esperança:
“Cursilhistas, Cristo, a Igreja e o Papa contam convosco” (Idem).
(Isto), sem que faltasse o seu apoio para viver estes ideais cristãos no metro quadrado em que o Senhor nos colocou:
“Coragem, Cursilhistas! Peregrinai pelos caminhos do mundo levando no vosso rosto, com firmeza e serenidade, o selo divino da graça. Que floresça em todo o mundo, com mil cores, a vossa amizade com Cristo”. (Papa Paulo VI na sua mensagem ao México. II Ultreia Mundial, 21.05.1970).
João Paulo II mantém a mesma linha de Paulo VI. Reconhece os Cursilhos e ratifica o campo de apostolado concreto que corresponde à finalidade do Carisma do Movimento, conforme foram inspirados no seu início:
“Evangelizar os ambientes no terceiro milénio cristã: um desafio para os Cursilhos de Cristandade” (Roma, III Ultreia Mundial, 29 Junho 2000).
Assim acontece o autêntico reconhecimento do Carisma dos Cursilhos de Cristandade, pela hierarquia.
O reconhecimento dum carisma com “contributos novos” à Igreja, nas palavras do Cardeal Josef CORDES. Sem que seja necessária uma norma legal, porque, felizmente, como se dizia no boletim de Setembro, o Espírito não se deixa controlar, sopra onde quer e revitaliza constantemente a Igreja, ainda que se queira enjaulá-la com leis e dogmas.
A finalidade dos carismas torna necessária e existência dum controlo, de certa disciplina, para que quem os possui não se deixe levar, no seu uso, pelos impulsos interiores; também é necessária a obrigação de os controlar, para que contribuam para o bem comum. Mas há-de ter-se em conta que, disciplina não é opor-se ao Deus que “inspira”, mas adaptar-se à finalidade da inspiração, que não é para proveito do profeta, mas da comunidade.
Na Igreja não existem nem clérigos nem leigos… A Igreja é uma comunidade de iguais em dignidade.
Os novos Movimentos não são alérgicos à teologia, mas são-no, sim, àquelas formas ideológicas ou doutrinais que dão por suposto o que não deve dar-se (como tal). São afins duma teologia prática, que é aquela que não encontra incompatibilidade alguma, mas antes um assombroso abraço harmónico, entre as verdades fundamentais da fé e a vida. Há que cortar com qualquer justificação que explique a mensagem do Amor pretendendo impor um espartilho que oprima ou reprima.
“A Igreja, se bem que seja um corpo, é o corpo de Cristo, portanto, um corpo espiritual, como diz São Paulo. A Igreja não é uma organização internacional, não é um corpo administrativo, nem de poder… é um corpo espiritual” (Bento XVI aos párocos de Roma, 22-02-2007).
Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovareis a face da terra.
Como o nosso próximo boletim será o de 1 de Janeiro de 2009, queremos aproveitar esta oportunidade para desejar a todos e a cada um de vós um “Feliz Natal e um Próspero Ano Novo” na companhia de todos os vossos entes queridos.
E, como sempre, despedimo-nos pedindo a Nosso Senhor que nos mantenha unidos no seu amor e amizade.
De Colores!
Juan Ruiz – Presidente OMCC.
III – Uma nota do nosso Director Espiritual
O Objectivo dos três encontros do Movimento dos Cursilhos de Cristandade é que possamos chegar a viver profundamente a nossa identidade com Cristo. Vivemos esta identidade em relação com a pessoa de Jesus Cristo e com o Cristo todo, quer dizer, o Corpo Místico de Cristo. “O Espírito Santo derrama a graça de Cristo, que é a cabeça, na Igreja que é o Seu corpo” (CIC § 774). Ao responder à invocarão “Cristo conta contigo”, devemos ter presente que é Jesus Cristo e o seu corpo, a Igreja, que contam connosco para nos convertermos continuamente na Boa Nova para um mundo saturado de más noticias. Se a Igreja não pode contar connosco, estamos, na verdade, a “decapitar” Cristo, ou seja, a separar a Cabeça do Corpo.
Com frequência surgirá uma certa tensão entre individualismo e colectivismo. A pessoa existe como indivíduo, mas dentro duma comunidade. O poeta John Donne lembra-nos que “nenhum homem é uma ilha”. Da mesma maneira, pode haver uma tensão entre o “individualismo” da Igreja local (diocese) e o universalismo, a catolicidade da Igreja em todo o mundo. Ambos os elementos da Igreja são necessários para que a Igreja possa levar a cabo a sua missão de ensinar, governar e santificar. Em conjunto, estas três missões constituem a base do Ministério Pastoral da Igreja e são confiadas, duma forma preeminente, aos bispos.
Ao longo da história da Igreja, vemos a interacção, não sem dificuldades, entre o ministério de “apóstolo” e o de “bispo”. O ministério apostólico, contido na pessoa do Papa, é universal, não territorial, enquanto que o ministério episcopal dos bispos é territorial. Ambos são vitais para a vida da Igreja. (Tenhamos em conta que o Papa é o bispo de Roma e que os seus irmãos bispos são também sucessores dos Apóstolos – trata-se de uma questão de ênfase respeitante à distinção da forma em que os seus ministérios são levados a cabo.) “As próprias diferenças que o Senhor quis que existissem entre os membros do seu Corpo, contribuem para a sua unidade e missão. É por isso que a Igreja tem diversidade de ministérios, mas unidade de missão. Aos apóstolos e seus sucessores, Cristo confiou o encargo de ensinar, santificar em seu nome e pelo seu poder” (CIC § 873).
A própria palavra “bispo”, no Novo Testamento “episkopos”, esclarece-nos quanto à natureza do ministério episcopal. O prefixo “epi” significa (neste contexto, já que tem muitos outros significados) “mais” ou “a partir de cima”. A palavra raiz “skopos” significa um “vigilante” ou “algo que se vê intensamente à “distância”. O episkopos” é, literalmente, o “sobre-vidente”. A sua tradução latina é “super” (mais) – “visera” (visor), quer dizer, “supervisor”. O que está implícito é que o “episkopos” tem uma visão sem obstáculos, “a partir do alto”, sem nada que obstrua o seu campo de visão. Portanto deve estar consciente dos acontecimentos na sua jurisdição, pois se trata de ser capaz de pastorear de forma eficaz.
Juan Ruiz, no comentário deste mês, afirmou, correctamente, que o carisma é um dom para aquele que o recebe e um presente para toda a Igreja. É necessária uma dupla prestação de contas, para fomentar a boa administração de um carisma:
– Devemos ser fiéis na manutenção da adesão à integridade do carisma original, como o Espírito Santo o comunicou à consciência humana do fundador ou fundadores.
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Reconhecemos que um movimento que cresce a partir desse carisma está sob a jurisdição e o discernimento do bispo, se o movimento é autorizado a funcionar na diocese. Isto torna-se necessário a fim de assegurar a ortodoxia e a “ortopraxis” (implementação correcta) do movimento.
Não seria correcto, da parte do bispo, mudar, reorientar ou redefinir o carisma; mas intervenções do tipo mencionado na alínea 2) poderão ser necessárias. A pedido de vários bispos, Roma interveio nos últimos anos, na prática litúrgica e outros aspectos, dum movimento muito apoiado. Em muitas ocasiões da história da Igreja, a santa Sé garantiu e promoveu a integridade dos carismas e dos movimentos gerados a partir destes carismas, uma consequência do facto de ter uma perspectiva global e não um ponto de vista local, insular.
Os Bispos exercem supervisão (o bispo é o “sobre-vidente”, recorde-se) sobre um segmento particular da Igreja universal, a diocese, mas fazem-no precisamente como membros do Colégio (colectividade), dos bispos. O Concílio Vaticano II, no nº 23 da Lúmen Gentium sublinha que “os bispos são a parte visível, princípio fundamental da unidade nas suas Igrejas particulares (dioceses). O Papa Paulo VI na Evangelium Nuntiandi (§ 73) afirmou que “estes ministérios (os movimentos), que são valiosos para a criação, a vida e o crescimento da Igreja e, pela sua capacidade de influir à sua volta e chegar àqueles que estão longe dela…, têm um verdadeiro valor pastoral na medida em que estão estabelecidos com absoluto respeito pela unidade e adesão às directrizes dos pastores (bispos) que são responsáveis pela unidade da Igreja…”
Contudo, o Papa João Paulo II, em Pastores Gregis (nº55), lembra-nos que os bispos são “também o vínculo visível de comunhão eclesial entre a sua Igreja particular e a Igreja universal”. Numa declaração da Sagrada Congregação para o Clero deparamos com a seguinte declaração de 25 de Março de 1980: “Cada um deles (os bispos) … está obrigado por decreto e mandamento de Cristo a ser solícito com toda a Igreja”. Manter um são equilíbrio entre estes dois pólos (a particularidade e a universalidade) do ministério dos bispos, não é tarefa fácil.
Tanto os bispos como o Papa estão encarregados da “regulação” do uso dos carismas: “Os bispos, em sintonia com o Romano Pontífice, recebem de Cristo – a cabeça – o dever de discernir estes dons, e da coordenação das suas múltiplas energias (LG, 25). No mesmo documento (nº 45), eles (os bispos) asseguram que sob a sua vigilância (“supervisão”) e protecção, institutos religiosos (e por inferência, os movimentos) devem desenvolver-se e florescer com o espírito dos fundadores”. Portanto, a menos que os bispos sejam os fundadores, não devem afastar-se do espírito da fundação e do carisma da pessoa a quem foi dado.
Os Carismas (e os movimentos a que dão origem) estão ao serviço da unidade. “As diferenças no povo de Deus, quer sejam de dons ou de funções, convergem e completam-se mutuamente entre si, para uma única comunhão e missão (Sagrada Congregação para os Religiosos e Institutos Seculares, 23 de Abril de 1978). Seria, portanto, o lema da minha nação, “E pluribus unum” no nosso contexto eclesial “a muitos, um” que se vê reforçado pelo Concílio Vaticano II, Decreto sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja (nº 17): “Sejam fomentadas as várias formas de apostolado, e… a íntima união de todas as obras de apostolado sobre a direcção do Bispo, … para que todas … trabalhem em harmonia umas com as outras, o que fará, simultaneamente, resplandecer mais a unidade da diocese”.
A Christifidelis Laici (Papa João Paulo II) faz muita luz sobre o papel dos carismas. “A comunhão eclesial… caracteriza-se por uma diversidade e complementaridade de ministérios, os carismas e responsabilidades. O mesmo Espírito é sempre o princípio dinâmico da diversidade e da unidade na Igreja … Os carismas, os ministérios e as diferentes formas de serviço exercidos pelo fiel leigo existem na comunhão e para a comunhão. São riquezas complementares … sob a sábia direcção dos seus Pastores. (nº 20).
Os carismas são dons para a Igreja no seu conjunto, mas devem ser apresentados aos bispos com a finalidade de promover a unidade e a harmonia na diversidade. Uma longa citação, continua: “Os carismas devem ser recebidos com gratidão, tanto da parte de quem os recebe, como da parte de todos na Igreja. Com efeito, eles são uma especial riqueza de graça para a vitalidade apostólica e para a santidade de todo o Corpo de Cristo, uma vez que sejam dons verdadeiramente provenientes do Espírito e se exerçam em plena conformidade com os autênticos impulsos do mesmo Espírito. Nesse sentido, torna-se sempre necessário o discernimento dos carismas … e estamos conscientes dos benefícios que provêm dos carismas, tanto para os indivíduos como para toda a comunidade cristã. Todavia, também, temos consciência da força do pecado e dos seus esforços para perturbar e confundir a vida dos fiéis e da comunidade… Por isso, nenhum carisma está dispensado da sua referência e dependência dos Pastores da Igreja” (Bispos). Citando a Lumen Gentium (nº 12), o Papa continua: «O juízo acerca da sua (dos carismas) autenticidade e recto uso pertence àqueles que presidem na Igreja… de modo que todos os carismas concorram, na sua diversidade e complementaridade, para o bem comum”. No final desta citação (todas as anteriores foram tomadas da Christifidelis Laici, nº 24) o Papa reconhece que “O mesmo Concílio incita fortemente os fiéis leigos a viver activamente a sua pertença à Igreja Particular (diocese) assumindo simultaneamente um espírito cada vez mais católico (universal)”.
Em alguns casos, o reconhecimento oficial dum carisma ou do movimento que nasce dele, proporciona o seu crescimento, tanto a nível local como mundial. “È sem dúvida oportuno que algumas novas associações e movimentos recebam o reconhecimento oficial e aprovação explícita da autoridade competente da Igreja a fim de facilitar o seu crescimento, tanto no plano nacional como internacional” (ChL 31).
De acordo com o Direito Canónico (can 305-1), tanto a Santa Sé como a diocese devem supervisionar as associações. “Todas as associações dos fiéis cristãos estão sujeitas à vigilância da autoridade competente da Igreja, cujo dever é cuidar que a integridade da fé e da moral se mantenham nelas, não aconteça que os abusos tenham influência na disciplina eclesiástica, pelo que a autoridade tem o direito e o dever de os visitar nos termos da norma legal e de acordo com as prescrições dos seguintes cânones:
1) – 305.2 “As associações de qualquer tipo estão sujeitas à vigilância da Santa Sé; associações diocesanas, bem como outras cujo trabalho (se desenvolve) na diocese, estão sujeitas à vigilância do Ordinário do lugar” (bispo).
2) – 321 “Os fiéis cristãos orientam e dirigem as associações privadas de acordo com os preceitos dos seus estatutos.”
3) 323.1 “Ainda que as associações privadas dos fiéis cristãos gozem de autonomia de acordo com o cânon 321 (acima), estão sujeitas à vigilância da autoridade eclesiástica de acordo com as normas do Cânon 305 (a cima) e estão sujeitas à orientação da mesma autoridade”.
Sendo assim, a autoridade da Igreja prefere manter-se à margem dos assuntos internos dos movimentos, permanecendo, no entanto, vigilante.
A autenticidade e a integridade dos carismas hão-de ser respeitados. “O Bispo deve promover os vários aspectos dentro da sua diocese para que, dentro de toda a diocese ou dentro de cada uma das suas zonas, todas as obras de apostolado sejam coordenadas sob a sua direcção, com o devido respeito pelos seus diferentes carismas” (Cânon 394,1). Vão ao encontro dos movimentos e novas comunidades com muito amor; façamos um esforço para conhecer a sua realidade de forma adequada, sem imprecisões superficiais nem juízos reducionistas… Aqueles que são chamados ao serviço do discernimento e da liderança não devem intimidar, com isso, os carismas. Mas devem estar conscientes do perigo de os asfixiar e resistir à tentação de uniformizar o que o Espírito Santo quis que seja multiforme, a fim de contribuir para a construção e expansão do único Corpo de Cristo, que o mesmo Espírito confirma na unidade” (Papa Bento XVI no seminário dos bispos em 18 de Maio de 2008, Conselho Pontifício para os Leigos).
Os bispos hão-de exercer a sua paternidade espiritual em ordem à edificação da Igreja.”Os novos movimentos e as novas comunidades eclesiais … avancem pelo caminho duma comunhão mais autêntica entre si e com todas as outras realidades eclesiais e vivam com amor e em plena obediência ao Bispo. E por outro lado, que os Bispos demonstrem a paternidade e o amor que são próprios dos pastores e saibam reconhecer, valorizar, e coordenar os seus carismas e a sua presença em ordem à edificação da única Igreja” (Papa João Paulo II, Eclesia in Europa, nº 29).
Os Bispos, ao respeitarem os carismas, não devem permitir que os carismas e os movimentos promovam o que seria, efectivamente, uma “Igreja paralela”. Também os leigos devem ser tidos em conta no apostolado das associações, tanto dos agrupamentos tradicionais, como dos representados pelos novos movimentos eclesiais… Todas estas formas de associação enriquecem a Igreja ainda que tenham sempre necessidade do discernimento adequado, próprio do Bispo. Constitui parte da missão pastoral dos Bispos fomentar a complementaridade entre os movimentos de diferente inspiração e exercer vigilância sobre o seu desenvolvimento, a formação teológica e espiritual dos seus líderes, e a sua adaptação às dioceses e comunidades paroquiais das quais não devem ser separados” (Pastores Gregis, nº 51). “Quando os movimentos eclesiais procuram humildemente fazer parte da vida da Igreja local e são acolhidos pelos bispos e sacerdotes diocesanos e dentro das estruturas paroquiais, representam um verdadeiro dom de Deus, tanto para a nova evangelização como para a actividade missionária propriamente dita (Papa João Paulo II, Redemptoris Missio, nº 72). “É da responsabilidade dos pastores guiar, acompanhar e alentar estes grupos (movimentos de renovação) a fim de que se possam integrar na vida e missão da paróquia e da diocese. Os que participam em associações e movimentos devem oferecer o seu apoio à Igreja local e não apresentar-se com alternativas às estruturas diocesanas e à vida paroquial. A Comunhão torna-se mais forte quando os líderes locais destes movimentos trabalham em conjunto com os pastores, em espírito de caridade, para o bem de todos” (João Paulo II, Eclesia in Asia). Quer dizer, os movimentos deveriam trabalhar dentro das estruturas da Igreja diocesana e evitar a tentação de absolutizar os movimentos em geral, ou “canonizar” um movimento como o ÚNICO caminho.
Numa audiência a diversos grupos, em 31 de Outubro de 2008, o Papa Bento XVI, referindo-se aos movimentos eclesiais, disse que “no seu discernimento, os pastores (os bispos) deveriam ter em conta que muitas destas associações já receberam ou estão em vias de receber o reconhecimento pontifício”. Isto implica que “o que Roma aprovou, não o travem”.
O ministério apostólico do papado da Igreja universal foi, frequentemente, a linha de defesa contra a invasão das Igrejas locais, inabilitando os movimentos ou desviando-os. O Papa Bento XVI dirigindo-se aos movimentos durante a Vigília do Pentecostes em 2006 disse: “No Espírito, a multiplicidade e a unidade caminham lado a lado. Ele quer a sua diversidade e quer que vos unais ao único corpo”. O papado não criou os movimentos mas transformou-se no patrocinador mais importante na estrutura da Igreja, a sua principal fonte de apoio eclesial” (o ao tempo Cardeal Ratzinger, no Conselho Pontifício dos Leigos, congresso dos Movimentos Laicais, 31 de Maio de 1998). De igual modo impediu a absolutização da Igreja diocesana à custa dos movimentos. (Esta citação é do anterior discurso do Cardeal Ratzinger). As Igrejas locais, bispos incluídos, devem lembrar-se que têm que evitar qualquer uniformidade de organizações pastorais e programas. Não devem converter os seus próprios planos pastorais na lista daquilo que o Espírito Santo está autorizado a fazer: uma obsessão pela planificação poderia tornar a Igreja impermeável à acção do Espírito Santo e do poder de Deus, dos quais vivem. Não deve ser tudo instalado no tronco de uma única organização uniforme; precisa-se menos organização e mais espírito”.
Voltando à imagem com que comecei esta reflexão, estamos convocados para viver a nossa identidade em Cristo no corpo todo, sem permitir que o Corpo seja “decapitado” (separado da Cabeça, de Jesus Cristo), nem devemos exagerar a importância de um só “membro”, “órgão” ou “sistema” do Corpo, em detrimento dos outros. No corpo humano, a hiperploriferação de células constitui um tumor, que, se não se trata, debilita, paralisa, e, inclusivamente, mata o corpo. Absolutizar qualquer membro do Corpo Místico, quer seja a Igreja Universal, a Igreja local ou qualquer carisma ou movimento, terão o efeito dum “cancerígeno” na vida da Igreja. A cada um é dada a manifestação do Espírito para o bem comum” (1Cor 12,7).
De Colores,
Pe. David Smith
Director Espiritual OMCC
Tradução: G Silva – MCC Santarém
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