ORGANISMO MUNDIAL DOS CURSILHOS DE CRISTANDADE 

BOLETIM MENSAL 

01FEV2009 

Queridos amigos

Que a paz e o amor de Nosso Senhor estejam sempre convosco! 

I – Actualidade

Na nossa secção de Actualidade, gostaríamos de informar todos os cursilhistas do mundo que continuamos a trabalhar com muito empenho na organização da IV Ultreia Mundial e pedimos, com urgência, que comprem os seus bilhetes o mais rápido possível, porque nos resta uma quantidade muito limitada de bilhetes e de forma alguma podemos exceder o limite, cerca de oito mil pessoas, que é o limite de capacidade do local. Continuamos a pensar que a forma mais prática e económica de comprar os bilhetes é através da Página da Web do Secretariado Nacional dos Estados Unidos ( www.natl-cursillo.org ). Para evitar a perda de algum bilhete, e porque não podem ser substituídos, os recibos das compras internacionais estão a ser enviados a Juan Ruiz, o qual, na manhã do evento, entregará os bilhetes à pessoa que fez a compra. 

Outra actividade que queremos partilhar com todos, é uma actividade que teve um “Fracasso Apostólico”, um “Êxito Apostólico” e um “Momento muito Próximo de Cristo”.O Secretariado Nacional das Honduras planeou um Cursilho de Cursilhos a ser celebrado de 22 a 25 de Janeiro, em que Juan Ruiz faria parte da equipa. Mas quando Juan Ruiz se preparava para partir para o aeroporto para voar para as Honduras, a cara da sua esposa ficou inflamada por uma reacção alérgica e teve que levá-la ao hospital, perdendo o voo para as Honduras. Este foi um “fracasso apostólico” para Juan Ruiz que se sentiu a defraudar todos os amigos qe o esperavam nas Honduras Também foi um “êxito apostólico” porque não teve coração para deixar a sua esposa nessa situação, gesto que foi muito agradecido pela sua própria esposa e por toda a família. E foi um “momento muito próximo de Cristo” porque, quando com o coração destroçado, teve que falar, à meia-noite, com António Punyed, também membro e reitor da equipa, para lhe dizer que não teve coração para deixar assim a sua esposa, a resposta de António Punyed foi: “não te preocupes porque entendemos muito bem que deves estar com a tua esposa e eu dou os teus rolhos”. Ver o êxito desse Cursilho de Cursilhos com mais de 100 pessoas de 23 cidades das Honduras, e que temos pessoas tão dedicadas e comprometidas em viver o Carisma Fundacional dos Cursilhos de Cristandade, é verdadeiramente um “momento próximo de Cristo”. 

II – Estudo do Carisma: V Parte 

A PESSOA QUE O RECEBE “Senhor, Tu sabes tudo” (Jo 21, 17)

Faz agora um ano, no Boletim de Fevereiro de 2008, iniciou-se uma exposição simples e esquemática dos elementos que caracterizam um Carisma e como se concretizam os mesmos no Carisma do nosso Movimento dos Cursilhos de Cristandade.

Na década de 40 do século XX, em Maiorca, tal como em toda a Espanha, a Igreja tornou-se a força aglutinadora mais importante da sociedade espanhola. A actividade que desenvolve nesta década, centra-se numa pastoral paroquial consistente na administração dos sacramentos, na catequese e na pregação. Podemos dizer que era uma pregação de grandes discursos, proferidos por eloquentes oradores. Desde o final da guerra civil, a partir de 1939, tenta-se um esforço de restauração religiosa. Entre as várias formas desse esforço renovador da vida religiosa espanhola, destaca-se a Acção Católica, dirigida por Manuel Aparici e os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola.

Pio XI deu carácter oficial à organização de leigos católicos – a Acção Católica – com a encíclica “Ubi Arcano Dei Consilio” (23-12-1922). A A.C. espanhola orientava o seu apostolado para a prestação de ajuda à hierarquia eclesiástica no exercício do apostolado diocesano e paroquial.

De forma paralela, sob a direcção do seu presidente, Manuel Aparici, desenvolvia uma actividade exterior muito apelativa. Essa actividade apelativa era fruto do fervor triunfalista da época, que ia incendiando os corações dos jovens com o espírito de “cavalheiro, espanhol e cristão”, e exteriorizava-se realizando grandes concentrações, com um êxito retumbante: 1 000 jovens em Roma em 1934; Saragoça cheia de jovens em 1940; 2 000 peregrinos em Lluc – Maiorca – em 1941, com Manuel Aparici à frente, e, com o estandarte levantado às maiores alturas, organizam a grande peregrinação a Santiago de Compostela, em Agosto de 1948, com o lema “a Santiago cem mil jovens em graça”.

A Acção Católica acolhe em Assembleia uma proposta de Manuel Aparici de levar a cabo pelas províncias espanholas, um cursilho de sete dias, com o objectivo fundamental de formar Chefes que pudessem entusiasmar todos os jovens espanhóis a peregrinar a Santiago, em Agosto de 1948. É-lhe dado o nome de “Cursillos de Adelantados de Peregrinos”. Paralelamente, em Maiorca, organiza-se um cursilho que se designa de “Cursillo de Jefes de Peregrinos”, destinados aos jovens da Acção Católica dos centros paroquiais ou vicariais da diocese.

Mons. Juan Hervás, desde os seus inícios pastorais, esteve vinculado e muito comprometido com a Acção Católica, “com fama de pessoa centrada nos esquemas teológicos mais tradicionais, com um grande sentido de autoridade e de hierarquia”. Chega a Maiorca no dia 1 de Março de 1947, como Bispo Coadjutor, com direito a sucessão do Arcebispo titular de Maiorca, Mons. Miralles.

À sua chega a Maiorca foi aclamado duma forma muito especial pelos jovens da Acção Católica. Estes jovens, com Eduardo Bonnín à frente, como Presidente do Centro, imediatamente lhe expuseram “o” que tinham em mãos desde há alguns anos. O entusiasmo que provocou no Bispo fê-lo propor a esses jovens “intrépidos” celebrar uma missa semanal, com uma pequena tertúlia depois da Eucaristia.

Monsenhor Hervás amou os Cursilhos:

Deu um grande apoio e impulso aos Cursilhos;

Exaltou-os até ao ponto de proclamar: “abençoo-os não com uma, mas com ambas as mãos”. Deu-lhes o nome de “Cursilhos de Cristandade”.

No dia 7 de Janeiro de 1949, para o Cursilho que se celebrava em San Honorato, com o qual se inicia a numeração dos cursilhos, escreveu uma carta a Eduardo, o reitor do Cursilho, em que, para além de indicar que “inteirei-me, pelo Director Espiritual, deste Cursilho” revela que oferece as suas orações pelo êxito do mesmo.

Estando na Diocese de Cidade Real, depois de deixar Maiorca, o Bispo D. Hervás escreveu uma longa bibliografia, da qual se destaca a Pastoral “Os Cursilhos de Cristandade, Instrumento de Renovação Cristã”1.

O Pe. Sebastián Gaya foi um sacerdote extraordinário. Trabalhador infatigável. Muito culto. Professor do Seminário. Grande e lúcido pregador. Apaixonado pelos jovens. Impulsor da Pastoral castrense e universitária. Grande animador da Peregrinação a Santiago, para a qual escreveu “Etapas dum Peregrinar”, na revista Proa, de que era Director desde Dezembro de 1946. Escreveu também o “Guia do Peregrino”. Vivia os dias realizando múltiplas tarefas. Enchia os minutos, de quase todas as horas, de quase todos os dias, com uma entrega generosa aos jovens, seminaristas, universitários, castrenses, propagandistas…

O Pe. Sebastián Gaya assistiu à clausura do Cursilho de San Honorato, no dia 102 de Janeiro de 1949, em representação do Bispo, o qual lhe havia entregue uma carta para Eduardo. Encerrou a clausura com palavras “de muito ânimo”, como era habitual na sua eloquência, voltando a Palma, de seguida. Transferido para Madrid em 1956, dedicou-se plenamente ao Movimento dos Cursilhos de Cristandade, sobre o qual escreveu vários livros.

Houve muitos outros sacerdotes que têm nome próprio nos Cursilhos. Terão que ser citados e sê-lo-ão, porque foi muito importante a sua colaboração e apoiaram os Cursilhos desde os seus inícios.

Houve leigos destacados, dirigentes da Acção Católica na década de 40, como José Ferragut, Jaime Riutort, José Font, Tano Ruiz, Andrés Rullan, Bartolomé Riutort, Juan Mir, que dedicaram muitas horas da sua vida juvenil, colaborando na implantação dos Cursilhos. Há-de destacar-se o grande contributo que cada um deu, superando os limites que os seus estudos, trabalho ou profissão lhes deixavam livres.

Menção especial se há-de dar a Guillermo Estarellas. O seu contributo foi providencial, porque assim o quis o Senhor. Além da colaboração nos Cursilhos iniciais, teve a inspiração de introduzir a canção “DE COLORES”. As notas desta canção ecoam no mundo como hino de todos os cursilhistas. E o eco da sua letra soa ao ouvido como “senha e contra-senha” de paz interior, fazendo o caminho em companhia.

- “De Colores”?, era a pergunta.

- “De Colores!” é a resposta dum cursilhista que vive em graça.

Eduardo Bonnín Aguiló nasce em Palma de Maiorca a 4 de Maio de 1917, sexta-feira. Desde o balbuciar das primeiras palavras foi educado numa viva Fé cristã, impregnado do Amor de Deus. Desde a sua meninice e durante a sua juventude, descobriu o tesouro “escondido”: DEUS AMA-NOS. Entendeu a amizade como método de vida. Partilhando-a com todos e vivendo os seus detalhes na intimidade dum grupo.

Com 18 anos incorpora-se no serviço militar, como soldado. O serviço militar prolongou-se por muitos anos, devido à situação de guerra (civil) espanhola e ao início da II Guerra Mundial. Durante o período de serviço militar convive com os outros soldados. Apesar de muitos desses jovens serem hostis à religião, descobre neles valores muito determinantes de alegria, amizade, nobreza, e duma sinceridade indómita, a respeito dos quais diz:

“… compreendi que Deus os AMAVA. Então comecei a interessar-me por lhes dar a conhecer esta realidade”.

“… se nós tivéssemos esta sinceridade para contar as coisas de Deus e falar de Jesus Cristo, como esta gente fala de qualquer coisa, concertaríamos o mundo…”

Um discurso que Pio XII dirigiu aos sacerdotes e Pregadores de Quaresma, de Roma, no dia 6 de Fevereiro de 1940, marca um novo passo na sua vida.

O Santo Padre dá orientações aos sacerdotes sobre a necessidade de “elaborar um quadro detalhado da população fiel e dos grupos que se afastaram da prática da vida cristã, que também são ovelhas pertencentes à paróquia”.

A amizade, os soldados e a mensagem do Papa convertem-se em três marcos que fundamentam a sua existência. Reza, trabalha e estuda. A oração e o estudo levam-no a aprofundar esses temas, aos quais dedica a sua vida, reflectindo as conclusões num trabalho que intitulou “Estudo do Ambiente”.

A única preocupação de Eduardo, daí em diante, foi a de procurar outros caminhos. Procurar outros caminhos não habituais na estrutura apostólica hierárquica, para fazer chegar a Boa Nova do Amor de Deus a todos, especialmente aos afastados, nos ambientes reais e concretos, nos quais se vive a vida ordinária, mediante um método de amizade.

Por esta missão e com estes objectivos decide incorporar-se na Acção Católica. Inicialmente não tinha querido fazer parte da Acção Católica, porque considerava que havia muita estrutura e pouca mística e, sobretudo, porque as pessoas e a amizade não ocupavam o primeiro lugar no apostolado da Organização. Na Semana Santa de 1943 participa no segundo curso de Chefes de Peregrinos que teve lugar no Mosteiro da Virgem de Lluc. É aqui, após este Cursilho, que considera que seria muito útil para o Senhor utilizar as estruturas existentes da Acção Católica.

“Entendemos que tinham que preparar-se os participantes não só para a Peregrinação mas também para a vida…” (Eduardo Bonnín).

Eduardo Bonnín, neste momento da História, afirma, entre os que partilham o seu dia a dia, que o “petróleo” do Amor de Deus está vivo e próximo, à flor da pele, em todos.

Eduardo contagia, aos que compartilham o seu dia a dia, a necessidade um apostolado de todos e para todos, especialmente os afastados, com o único objectivo: que saibam que Deus os ama. Eduardo inculca, nos que compartilham o seu dia a dia que o apostolado se há-de fazer nos “sítios” concretos em que vive e se move cada um dos homens e mulheres, especialmente as pessoas “afastadas”. Nas suas casas, no seus trabalhos, nos seus locais de ócio, …

Eduardo especifica entre os que compartilham a sua quotidianidade, que o único método pelo qual será possível provocar “fome de Deus” nestas pessoas, é pela via da amizade e utilizando a sua própria linguagem.

Eduardo acende nos que compartilham a sua quotidianidade, uma nova luz com as velas de sempre.

Eduardo Bonnín, entre os que compartilhavam a sua quotidianidade, deu a conhecer, contagiou, imbuiu, detalhou e incendiou a luz do Carisma espalhado por todo o mundo como Movimento dos Cursilhos de Cristandade, porque o espírito Santo assim o quis.

Como sempre, despedimo-nos pedindo a Nosso Senhor que nos mantenha unidos no Seu amor e amizade.

De Colores

Juan Ruiz – Presidente OMCC 

III – Uma nota do nosso Director Espiritual

Uma das primeiras coisas que aprendemos na catequese é que fomos criados para “conhecer, amar e servir o Senhor”. Se não conhecermos o Senhor, não poderemos amá-Lo e servi-Lo. Temos uma fome inata da verdade – em primeiro lugar para Aquele que é a Verdade.

Juan Ruiz, referindo-se ao Boletim do OMCC de Fevereiro de 2008, afirmou: “Pretendemos simplesmente abrir a porta e a fome de ir estudando…” Esta “fome de um exame mais profundo “ é uma fome de verdade, isto é, uma fome da verdade do Movimento dos Cursilhos. Temos que conhecer o nosso movimento se queremos encarnar a Boa Nova de que Deus me ama/nos ama e por amor a Deus, servir a Deus servindo o nosso movimento.

Na altura em que começou o meu serviço no Comité Executivo do OMCC, servia como administrador da sede da América Latina da organização internacional pró-vida, a maior do mundo. Ainda que tenha voltado a tempo inteiro ao ministério paroquial, continuo a ser o Director Espiritual do Secretariado da América Latina. Com frequência me é pedido que seja co-anfitrião do programa de rádio semanal “Defende a Vida” na Rádio Católica Mundial (EWTN). Antes de um dos últimos programas encontrei-me com a fundadora da organização latino-americana (que existia desde há vários anos antes de se incorporar na organização mundial) e pedi-lhe que me fizesse um historial do seu trabalho na vinha do Senhor. Ela (uma cursilhista) luta desde há vários anos com o que para muitas pessoas é uma doença terminal. Recordando como muitos cursilhistas pressionaram Eduardo Bonnín, durante anos, que relatasse as suas memórias para que a autêntica história do movimento não se perdesse para as gerações futuras, depois da sua morte, e que é impossível entender o carisma sem uma clara compreensão da história movimento, do mesmo modo lhe implorei que fizesse o mesmo. “Se a história não é contada, o trabalho será distorcido e, eventualmente, morrerá.

Estou disposto a escrever as suas memórias. Esses momentos da história trouxeram-nos ao lugar onde estamos hoje e continuará a guiar-nos, no futuro, na fidelidade à visão que o Senhor lhe deu (através dos Cursilhos, poderia eu acrescentar). Neste momento, porém, não entende a razão da minha insistência no assunto, pois vê a iniciativa apenas como uma recompilação de arquivos que só têm pó.

A Páscoa era a memória anual necessária para que o povo judeu não se desviasse do caminho que Deus lhes tinha traçado. Portanto, tinham as “ferramentas” essenciais à sua fidelidade ou à sua identidade. A memória era tão vital para eles que uma das palavras para “pecado” era “esquecer” (as maravilhas que Deus tinha feito por eles). Jesus edificou sobre esta forma de entendimento, quando instituiu a Eucaristia, fonte da nossa fidelidade à pessoa que é “o Caminho, a Verdade e a Vida”. “Fazei isto em minha memória” (1Cor 11, 24). A palavra usada para “memória”, (é) “anamnesis”. O que “não esquece” (an-amnésia).

Se nós, como comunidades de fé, e como indivíduos, não participamos na celebração da Eucaristia, ficamos extremamente vulneráveis a idolatrias e outros desvios. “A verdade vos fará livres” (Jo 8, 32). Esta, a verdade, livra-nos de todo o erro. No Livro do Apocalipse (19, 11) Jesus é chamado “O Fiel e Verdadeiro”. A fidelidade e a verdade vão sempre de mãos dadas.

O filósofo George Santayana disse “A pessoa que ignora a história está condenada a repeti-la”. Temos que conhecer a história do nosso movimento a fim de evitar os mal-entendidos do carisma e as aplicações enviesadas do método.

A História não é apenas datas e acontecimentos. É também as pessoas e as suas inter relações. Eduardo Bonnín no Rolho que partilhou no Encontro Mundial na Coreia, em 1997, afirmou que “Os Cursilhos têm a sua origem no desejo de transformar a realidade em história, que é a consequência colectiva da inter acção das pessoas, sendo levedura nas relações interpessoais em qualquer circunstância ou meio ambiente”. Para compreender a verdade da história do movimento, é necessário entender a verdade sobre a pessoa e as pessoas que viveram essa história.

Em Novembro de 2007 tive o privilégio de tentar traduzir a última charla que Eduardo proferiria. (Faço finca-pé no “tentar” porque era quase impossível traduzir em simultâneo, devido à rapidez do seu discurso e ao facto de que quase nunca descansava para tomar fôlego!) Um desafio muito maior e muito mais frutífero é traduzir os valores evangélicos com os quais procurou com seriedade “infectar” todas as pessoas, nas nossas vidas para que possamos ser a Boa Nova, encarnando os valores que deram origem ao carisma do Movimento.

Vamos ser sinceros? Vamos ser fiéis? Ou, pelo contrário, vamos esquecer? 

De Colores!

Pe. David Smith – Director Espiritual OMCC  
 

Tradução: G. Silva – MCC Santarém

 

 


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