ORGANISMO MUNDIAL DOS CURSILHOS DE CRISTANDADE

BOLETIM MENSAL – 01 MAIO 2008

Queridos amigos
Que a paz e o amor de Nosso Senhor estejam sempre convosco!

Neste boletim mensal de Maio queremos introduzir um novo formato, incluindo três partes. A primeira parte do Boletim fará referência a qualquer evento ou informação actual do MCC. A segunda parte do boletim será sobre o tema (contínuo ainda que não na sua totalidade) do Carisma do MCC, com uma secção de estudo em cada boletim mensal para vos convidar a uma reflexão e estudo constantes. E a terceira parte do boletim será a colaboração do nosso Director Espiritual. Esperamos que este formato seja benéfico e ajude a motivar-vos e às vossas Escolas de Dirigentes a estudar, pensar e partilhar as vossas descobertas sobre o Carisma do Movimento dos Cursilhos de Cristandade. Esta discussão e descobertas ajudar-nos-ão no nosso estudo sobre o que é Essencial, Importante e Acidental no MCC.

Nota especial: Pedimo-vos que distribuam este Boletim Mensal a toda a estrutura operacional do MCC (Internacional, Nacional e Diocesana) porque ainda nos continuam a chegar pedidos de membros das escolas de dirigentes que não o recebem.

  1. Eventos e informação actual

Neste mês de Maio, mês da nossa Mãe, a Virgem Maria, queremos começar partilhando o que Juan Ruiz, convidado pelo Secretariado Nacional de Portugal e pelo Grupo Internacional GET, viveu e conviveu com a sua participação na Ultreia Europeia celebrada no Santuário de Nossa Senhora de Fátima (Portugal) nos dias 11, 12 e 13 de Abril. Nessa grande festa que contou com a participação de mais de nove mil cursilhistas, um cardeal, cinco bispos e oitenta e cinco sacerdotes, a quem foi manifestada imensa gratidão pelo seu apoio e participação, apesar das suas múltiplas ocupações.

Foi um evento extraordinário e, ainda que tudo se faça por Deus e para Deus, falando humanamente, devemos agradecer ao Grupo Internacional GET, na pessoa de Francis Napoli e sua equipa e ao Secretariado Nacional de Portugal, na pessoa de Jaime Custódio e da sua equipa, pelo excepcional serviço que prestaram a todos os países da Europa, ao organizar e realizar esta grande e bem sucedida Ultreia Europeia. Era evidente o amor e a amizade de Jesus Cristo durante toda a vivência e convivência dessa grande “Festa de Amizade”.
Ambas as equipas, em perfeita união, conseguiram promover a unidade na diversidade de mentalidades, culturas e línguas de todos os países da Europa.

Estar sob a luz de Nossa Senhora de Fátima neste santo santuário e em constante oração através dos terços diários e das impressionantes liturgias e convivência com todos os amigos de todos os países europeus presentes, foi um agradável presente de Nosso Senhor Jesus Cristo e mais uma prova de que, sem que importe o país do mundo, a cultura, a língua e os costumes, a metodologia dos Cursilhos de Cristandade, para preencher o vazio no coração de cada homem com o amor a amizade de Deus em Jesus Cristo, continua a ser tão efectiva como no Primeiro Cursilho de Cristandade de Cala Figuera de 20 a 23 de Agosto de 1944 (primeiro cursilho de cristandade já diferente dos Cursilhos de Adelantados para a peregrinação). E para esclarecer este ponto, a pedido do Secretariado Nacional da Áustria na Ultreia Europeia de Fátima, o cursilho nº 1, de 7 a 10 de Janeiro de 1949, no Mosteiro de Santo Honorato, que é chamado o Primeiro Cursilho Oficial, foi simplesmente o primeiro a ser numerado, dado que era já o sexto dos Cursilhos novos (“Historia y Memoria de Cursillos”, Francisco Forteza, pág. 34 e “Historia de Cursillos de Cristiandad” Gullermo Bibiloni, pág. 38-41).

  1. Estudo do Carisma: 1ª Parte

 

INTRODUÇÃO
É às fontes que se deve ir beber.
Voltar às fontes é beber do manancial do qual brota a água.
Beber das fontes é “renascer” com cada sorvo de água pura inicial.

A génese das coisas esclarece-nos sobre a sua natureza e para compreender bem a natureza de qualquer conceito nada melhor que começar por investigar a sua origem, o melhor método de investigação é estudar as coisas no seu processo de desenvolvimento desde os começos.

Com este trabalho pretende-se chegar a todo o leitor que queira conhecer “a” verdade do Carisma dos “Cursilhos” como foi inspirado pelo Espírito Santo.
É uma exposição esquemática de factos e acontecimentos ocorridos que, encadeados e unidos, foram compondo o “eco” do Senhor Jesus Cristo naquele momento e lugar, que perdura nos cinco continentes como Movimento dos Cursilhos de Cristandade.

Houve a preocupação de prescindir de frases eloquentes e de entrar em aprofundamentos filosóficos ou teológicos. O assunto expõe-se através de uma linguagem normal, com palavras simples, para que o entendam todas as mulheres e homens de qualquer profissão, em qualquer situação em que se encontrem, e dando por suposta a boa vontade.

Em cada momento da história da Igreja ocorrem acontecimentos providenciais dos quais o Senhor se vale para provocar nas pessoas esse “renascer” espiritual que Nicodemos teve tanta dificuldade em entender.
Os Cursilhos são um desses acontecimentos.
Os Cursilhos não nascem para que os cristãos sejam melhores, nem para que os melhores sejam cristãos, mas para que os cristãos sejam cristãos.

Ir-se-ão acendendo as velas do início como se foram sucedendo os acontecimentos do Carisma dos Cursilhos, porque um fenómeno histórico só se pode captar convenientemente quando se faz luz sobre os seus começos.

Todo o Movimento começa com uma mística.
Depois de ter nascido “a” mística, é necessário que se ponha em prática uma organização para manter e expandir a essência desse Movimento.
Mas havemos de estar precavidos porque no momento da conjunção da mística e da organização, pode acontecer, e muitas vezes acontece, que a organização abafe a mística.
A organização abafa a mística quando os homens e mulheres responsáveis que “manejam” a organização, “consideram” necessária a implantação duma norma e antepõem a norma ao critério.
A organização abafa a mística também quando esses homens e mulheres “responsáveis” que “manejam” a organização, enquadram “a” mística “noutra” mística.

Para que a organização não abafe a mística é absolutamente necessário que as pessoas que assumem a organização tenham o critério suficiente sobre “a” verdade do que assumem organizar.
Se nessas pessoas isto é necessário, mais necessário é ainda, para que a organização não abafe a mística, que o conjunto ou totalidade das pessoas que compõem esse Movimento, ou seja, as pessoas simples e normais que vivem esse Movimento, conheçam “a” verdade da mística e também que tenham o critério suficiente sobre o que se há-de organizar, para que todas e cada uma dessas pessoas simples e normais que compõem e vivem o Movimento imponham o seu critério, no caso de os responsáveis encarregados da organização tergiversarem, manipularem ou se desviarem de “a” verdade do que se pretende organizar.

A verdade faz-nos livres no critério “da” verdade que se pretende proteger e em sua defesa, sem submissão a nada nem a ninguém.

Quando há pessoas com critério a organização nunca abafa a mística, mas antes a mística vive, cresce e dá frutos nessas pessoas.

Há que permanecer fiéis “à” verdade e há que manter um critério firme sobre “a” verdade ainda que existam e se ouçam “outras” opiniões diferentes “da” verdade. Essas “outras” opiniões podem ser muito boas, mas a sua bondade estará “noutra” ordem “noutra” verdade. Essas “outras” opiniões e critérios, portanto, e apesar de serem boas para serem aplicadas “noutro” campo, hão-de ser repudiadas do campo “da” verdade que se pretende viver. Ainda que doa, a verdade é mais importante que a dor que possa causar.
Há que procurar, como cristãos, como cursilhistas, ser santamente orgulhosos, santamente egoístas e santamente ambiciosos “da” verdade.

O critério supremo sobre os Cursilhos é considerar que os Cursilhos são mais importantes que um código de normas para levar a cabo o Movimento dos Cursilhos.

Nos Cursilhos o “ser” é mais importante que o “fazer”.
Nos Cursilhos o “quê” é mais importante que o “como”.

Cursilhos é um critério.
Cursilhos é uma postura perante o facto de viver.
Cursilhos é dar importância ao baptismo e à amizade.
Porque é pelo Baptismo que somos filhos de Deus.
Porque é pelo Baptismo que somos Sacerdote, Profeta e Rei.
Porque é pelo Baptismo que procuramos amizade, que é o alento da vida.

Cursilhos não nasce para que os cristãos sejam melhores, nem para que os melhores sejam cristãos, mas para que os cristãos sejam cristãos.
Ser cristão é saber converter-se continuamente.
Ser cristão é “sentir nostalgia” de ser cristão.
Ser cristão, é, antes de mais, sentir-se amado por Deus.

Como sempre, despedimo-nos rogando a Nosso Senhor que nos mantenha unidos no Seu amor e amizade.

De Colores.
Juan Ruiz – Presidente – OMCC

  1. Una nota do nosso Director Espiritual

 
“Um fenómeno histórico só se pode compreender convenientemente quando se faz luz sobre os seus começos”.

O povo judeu situa a sua identidade no “evento fundamental”, o Êxodo, desde a Páscoa até à entrada na Terra Prometida. Na celebração anual da Páscoa, proclamam e comemoram em rito a intervenção salvadora de Deus para com eles. É principalmente neste recordar que se reconhecem como povo de Deus, nesta renovação da Aliança pela qual Deus pronuncia “Eu sou o vosso Deus e vós sois o meu povo”,

João Paulo II em “Memória e Identidade” diz que “os Cristãos, ao celebrar a Eucaristia em “memória” do seu Senhor, descobrem continuamente a sua identidade”. Nós, os Cristãos, não podemos compreender a nossa identidade nem de que maneira descobri-la na celebração da Eucaristia, a menos que compreendamos de que maneira a Eucaristia tem as suas raízes na comemoração da Páscoa. É necessário entender o que significa recordar (“zikkaron”) em Hebreu. Se não, simplesmente estaremos a pensar no passado ou a exprimir uma nostalgia por ele, como muitos Cristãos não-Católicos crêem.

A história do povo Israelita é uma sucessão de fidelidades e infidelidades para com o Deus da Aliança. O Pe. Raymond Moloney S.J., observa que os seus pecados (e os nossos!) são as ocasiões em que não conseguimos recordar. “Os Israelitas voltaram a prostituir-se seguindo os Baales (os deuses pagãos dos Cananeus) e tomaram por deus a Baal Berit. Esqueceram-se do Senhor seu Deus, que os tinha livrado das mãos de todos os seus inimigos (Juízes 8, 33-34). ”Esqueceram-me e confiaram na mentira” (Jr 13. 25). “Esquecendo transforma-se numa falta de identidade e como consequência leva a que o povo caia na idolatria. Um exemplo disto ocorre quando Moisés se demora 40 dias na montanha, quando recebe os mandamentos. O povo desejava segurança e recompensa imediata pela sua experiência espiritual, pedindo a Aarão um ídolo: o bezerro de ouro. “Vendo o povo que Moisés tardava em descer da montanha, reuniu-se na presença de Aarão e fez-lhe este pedido “Vamos, faz-nos um deus que nos guie, porque não sabemos o que terá acontecido a esse Moisés que nos tirou do Egipto” (Ex 32,1).

O remédio para esta “negligência” que leva à idolatria e à traição da identidade é a “memória” da Páscoa. De acordo com o “Comentário Bíblico de S. Jerónimo”, esta memória no pensamento Judeu, “realiza o que recorda”. O Pe. Johannes Emminghaus nota que a Páscoa é o “chamar à realidade actual a fidelidade contínua e duradoura à Aliança”. O Pe. Raymond Moloney, S.J., também adverte que “não é apenas pensar no passado, mas entrar num evento do passado, no tempo presente”.

Uma vez mais o Comentário Bíblico de São Jerónimo afirma que “Como Deus é sempre fiel à Sua Aliança, as Suas acções passadas tornam-se presentes e produzem os seus efeitos para todos aqueles que partilham a refeição Pascal. Neste contexto é que Cristo pronuncia o Seu mandamento: “Façam isto em memória de Mim”. O termo cristão do Novo Testamento (Em grego “anamnésia”, ou “memória”) é usado para descrever a parte “memorial” da Oração Eucarística, imediatamente depois da Consagração (p.ex. (Celebrando…) o memorial da morte e ressurreição (do Vosso Filho…). È nesta “memória” que continuamente descobrimos a nossa identidade dando o braço às nossas “idolatrias” diárias (pecados) que são o resultado da nossa “amnésia espiritual”. Somente se conhecemos as raízes dos conceitos de “negligencia” e “memória” no pensamento judaico, podemos entender a Missa como “sacrifício” (o sacrifício histórico e único de Jesus re-presente ‘’de novo presente, n.t.’’) e captar adequadamente o sentido da Presença Real de Jesus na Eucaristia. Para nós, Cristãos, é fundamental para a nossa auto-compreensão saber que somos “o povo que celebra a Eucaristia”.

Sem (querer) exprimir uma importância equivalente entre a Eucaristia e o “Carisma Fundacional” dos Cursilhos, tentei estabelecer um paralelismo. Como disse Juan Ruiz de forma tão eficiente, “um fenómeno histórico só pode captar-se adequadamente quando se faz luz sobre os seus começos”. Sem compreender a “visão” e a mentalidade “fundacional” do “evento fundacional”, o primeiro Cursilho, estamos empobrecidos na nossa compreensão e somos vulneráveis a distorções e desvios. A maior parte de nós participámos numa dinâmica que se leva a efeito com um grupo de 10-20 pessoas – conta-se um conto a alguém e essa pessoa conta-o a outra (sucessivamente). Depois de o recontar umas quantas vezes, o resultado final só vagamente se parece com o conto inicial. Em 1Cor, 11, S. Paulo refere-se à “entrega” da Eucaristia. “Eu recebi do Senhor aquilo que vos transmiti” e continua narrando a Instituição da Eucaristia. Paulo cuidou de ser um bom portador, sem acrescentar nem tirar, sem desvio nem distorção. Que sejamos imitadores de São Paulo o Patrono do nosso Movimento!

A concluir opto por colocar “Carisma Fundacional” em vez de “liberdade” numa citação do Papa João Paulo II em “Memória e Identidade”. “O carisma fundacional, há que conquistá-lo continuamente, não basta possuí-lo. Chega como um dom, conserva-se com árdua luta”.

De Colores
Pe. David Smith

Director Espiritual – OMCC


Tradução: G Silva – MCC Santarém


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