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ORGANISMO MUNDIAL DOS CURSILHOS DE CRISTANDADE
BOLETIM MENSAL
01MAR2009
Queridos amigos
Que a paz e o amor de Nosso Senhor estejam sempre convosco!
I – Actualidade
Durante o mês de Fevereiro, Juan Ruiz e sua esposa, Conchita, serviram em equipas de Cursilhos da Arquidiocese de Los Angeles. Os dois fins-de-semana coincidiram com o seu 37º aniversário de casamento e com o dia da amizade. Que distinta forma de celebrar estes dois dias tão importantes, na fonte que os ensinou como torná-lo realidade quotidiana de todos os nossos dias!
E porque foi tão significativo para ambos?
Ambos encontraram a verdadeira Amizade e o amor de Cristo num Cursilho de Cristandade aos cinco anos de vida em casal. E desde essa altura Nosso Senhor Jesus Cristo, através deste Movimento que tem a sua base no amor e na amizade de Deus em Cristo Jesus, tem sido seu modelo e guia durante toda a sua vida. Neste período de tempo encontraram os melhores amigos que qualquer pessoa poderia desejar e, apesar de terem tido fracassos e alegrias, os benefícios foram muito maiores e sempre a mão de Cristo os levantou através dum destes muitos amigos.
“O servir a nossa Igreja através deste maravilhoso movimento, durante a maior parte do nosso tempo de casados, manteve-nos esse espírito de Amizade e Amor de Cristo e onde quer que nos movamos, no nosso metro quadrado móvel, podemos ver a oportunidade que nos oferece o nosso Pai para continuar a cultivar essa árvore da amizade e do amor de Cristo para que os seus ramos possam tocar os corações de muitas outras pessoas e se dêem conta, como diria o nosso Grande Amigo Eduardo Bonnín, que “a gente é boa, a vida é bonita e que vale a pena viver”.
“Neste dia da amizade dei graças a Deus pela oportunidade que me brindou de me aproximar um pouco de todos os amigos em tantas partes do mundo e partilhar o pouco que tenho e que vivi com todos eles.”
IV Ultreia Mundial – “A beleza de ser cristão e a alegria de o comunicar”
Queremos continuar a compartilhar convosco a emoção com que antevemos a próxima Ultreia Mundial partilhando alguns pensamentos sobre o tema “A Beleza de Ser Cristão e a Alegria de o Comunicar”. Este tema foi tomado do Segundo Congresso de Movimentos Eclesiais, em Roma, no Pentecostes de 2006. Este tema foi sugerido pelo Papa Bento XVI no início do seu Ministério Petrino. Na sua primeira homilia na Praça de São Pedro, o Papa disse: “Não há nada mais belo que ter sido alcançados, surpreendidos, pelo Evangelho, por Cristo. Nada mais belo que conhecê-Lo e comunicar aos outros a amizade com Ele”.
Compartilhámos convosco, no início do nosso serviço em 2006, quão oportuno e providencial foi ter este Congresso Mundial de Movimentos Eclesiais para nos centrar e motivar durante o nosso serviço como comité executivo do OMCC. O nosso serviço ao Movimento dos Cursilhos realiza-se ao poder comunicar as instâncias do Espírito Santo na forma como fala ao nosso santo Padre, o Papa Bento, das necessidades do nosso tempo. E nós obviamente, vimos a necessidade de que o nosso movimento medite sobre este (tema) “Beleza de Ser Cristão”. Diz-se que o Movimento dos Cursilhos deu à Igreja um optimismo antes ausente e, indubitavelmente, este optimismo exprime-se melhor como Beleza. Outra característica indiscutível de todo o Cursilhista é a sua Alegria. Quando somos capazes de nos darmos conta de que, acima de tudo, somos amados por Deus, não há outra resposta mais adequada que a Alegria. Verificamos que pela forma como for maturando o nosso Movimento vai prosperar se contínua e constantemente conseguimos reconhecer a Beleza de sermos Cristãos e a comunica amos com Alegria. Então, por estas razões avassaladoras e poderosas seleccionámos o mesmo tema para a IV Ultreia Mundial que fora expressão da orientação do nosso trabalho e ao mesmo tempo a nossa esperança para os anos próximos.
Durante o mês de Fevereiro, o Pe. David Smith fez uma viagem a Roma e conjuntamente com o nosso Assessor Episcopal, o Cardeal Juan Sadoval Iñiguez, fez um pedido pessoal ao Papa Bento XVI de uma mensagem para a IV Ultreia Mundial. Durante a sua viagem a Roma também consultou o Conselho Pontifício para os Leigos sobre a prorrogação da condição “Ad Experimentum” dos Estatutos, até que tenhamos um Encontro Mundial.
Também durante o mês de Fevereiro, com a iniciativa e entusiasmo de Luís Cenac, um Cursilhista dos Estados Unidos que agora vive na Ilha da Samoa Americana – Pago Pago, Juan Ruiz e Tam Nguyen, Coordenador do Grupo Ásia Pacífico, deslocaram-se à Ilha Samoa Americana para se reunirem com D. Johan Quinn Weitzel, Bispo da Samoa Americana Pago Pago e para fazer um estudo do ambiente para iniciar os Cursilhos em Inglês.
O Bispo D. Quinn deu grande apoio e desejou-lhes boas vindas ao mesmo tempo que reconhece a necessidade de que o Movimento dos Cursilhos seja introduzido na Ilha Samoa Americana – Pago Pago. Disponibilizou o uso de Centro Pastoral para realização dos Cursilhos. Além disso designou o Pe. Eneliko Auvaia como Directore Espiritual do Movimento dos Cursilhos. O Pe. Eneliko e possíveis dirigentes participarão num Cursilho na Austrália ou nos Estados Unidos.
Durante a visita fizeram o Estudo do Ambiente e gravaram um programa de televisão na estação local, reuniram-se com vários sacerdotes, freiras e possíveis dirigentes e foi um grande êxito apostólico para o MCC. Estamos a planear começar o primeiro Cursilho em Inglês na Samoa Americana - Pago Pago em princípios de Setembro de 2009. Pedimos as vossas orações para que o Amor e a Amizade de Deus possa chegar a todas as pessoas que vivem na Samoa Americana, através do Movimento dos Cursilhos.
II. Estudo do Carisma: VI Parte
CURSILHOS DE CRISTANDADE – UM MOVIMENTO LAICAL
“Deus escolheu-me antes de eu nascer e chamou-me pelo seu muito amor. Quando lhe aprouve, deu-me a conhecer o seu Filho para que eu anunciasse o Evangelho. E não consultei ninguém nem sequer fui a Jerusalém para encontrar-me com os que eram apóstolos antes de mim” (Gal 1, 15-17).
Uns utilizam a palavra laical, outros preferem dizer secular. Secular ou laical, aqui, entendemo-lo com o mesmo significado, referido a nós, os baptizados que não recebemos a “imposição das mãos”, gesto que se conhece como “ordenação” ou sacramento das ordens sacras.
Desde o início do século XX que se vem falando da presença e acção dos leigos na vida pública eclesial e do apostolado dos leigos. O primeiro é uma esperança e uma alegria. O segundo, o apostolado dos leigos, não é novidade de hoje, mas de sempre.
No Evangelho encontramos numerosos “gestos” de Jesus Cristo com os quais convida os “leigos” ao apostolado. Imediatamente a seguir, São Paulo reitera o convite evangélico proclamando-o em todos os lugares que percorre.
No século passado designou-se o laicado como o “gigante adormecido”. Esse “gigante” foi acordando a pouco e pouco. Isolada e pessoalmente, nalguns casos. E, também, por vozes destacadas e cátedras de teologia fundamentando a missão, um tanto “esquecida” do laicado na Igreja.
N a actualidade, o gigante está desperto e com vitalidade. A normalidade da participação activa do leigo no trabalho missionário da missão da Igreja, em íntima comunhão, que é a concórdia amorosa, segundo o espírito de São Cipriano, no seguimento de Cristo, é uma alegria para o Senhor.
Não importa sequer, que o caminho seja pedregoso. Esta íntima comunhão fará que vão desaparecendo as pedras e aplanar-se-á o caminho.
Sem dúvida que o Concílio Vaticano II, bem como a “Christifideles Laici” foram energia, fizeram de motores de impulsão para este despertar dos fiéis leigos de Cristo (Christifideles laici).
O apostolado da Boa Nova do Evangelho é de todos. Não é uma função (exclusiva) da hierarquia. Nos 72 enviados a que se refere S. Lucas estamos todos representados, porque o “Ide” do Evangelho “dirige-se e estende-se a todos”. (Christifideles Laici, 24).
“Deus escolheu-me antes de eu nascer e chamou-me pelo seu muito amor. Quando lhe aprouve, deu-me a conhecer o seu Filho para que eu anunciasse o Evangelho. E não consultei ninguém nem sequer fui a Jerusalém para encontrar-me com os que eram apóstolos antes de mim” (Gal 1, 15-17). Assim o afirma São Paulo, o patrono dos Cursilhos, o primeiro e o maior “Christifideles laici”. Todos somos Paulo.
Nesta “edificação “ do “Ide”, todos os que cremos em Cristo formamos uma mesma plataforma porque o baptismo nos faz irmãos como reis, sacerdotes e profetas.
Na Igreja ninguém é apenas pescador, ou apenas pastor, e ninguém é apenas peixe ou só ovelha. Quando todos os baptizados são pescado e pescadores ao mesmo tempo, abre-se aí um grande campo de acção para os leigos.
O Corpo Místico, que formamos todos, é um só corpo 1Cor10,17), e cada um é membro do outro (Rom 12,5), crescendo para Deus, compacto e estruturado mediante os ligamentos e articulações, (Col 2,19) sendo Cristo a cabeça deste corpo e identificando-nos com Cristo pelo baptismo (1Cor 12,13 e LG 7). Então acontece que, quando se enchem as redes e a pesca é grande, os da barca que encheu as redes, fazem sinal aos companheiros da outra barca para que venham ajudá-los.
Esta é a doutrina da Lúmen Gentium, quando proclama a igualdade e a unidade de leigos e clérigos dentro do Povo de Deus, identificando este Povo pela dignidade e a liberdade de filhos de Deus, num sacerdócio comum, pela graça de Deus, levando cada um os seus dons aos outros, de forma que o conjunto e cada uma das suas partes se enriquecem com o compartilhar mútuo e com a busca da plenitude da unidade para que, cada um, com o dom que recebeu, se ponha ao serviço dos outros, como bons administradores da múltipla graça de Deus (1Pe 4,10).
Sem dúvida que há dificuldades. Sempre houve a “ilusão” (aspiração) de sentar-se à direita ou à esquerda do “mestre”. Àquele a quem coube a graça de ser “poderoso” esquece a miúdo, levado pelo boa fé, sem dúvida, de que o “maior” há-de ser “servo, servo de todos” (Mc 10, 41.45). Nada é novo. Trilhamos os mesmos caminhos de sempre e encontramo-nos com as mesmas pessoas.
Está provado que “o caminho dos fiéis leigos não está isento de dificuldades e perigos. (ChfL 2.12)
Acontece, por vezes, e dizemo-lo na medida em que brota das exigências do amor e onde quer que a Igreja nos convida a ser Igreja, que há aqueles que embora actuando com espírito de serviço e de boa fé, se arrogam um lugar eclesial injustificado e intolerável.
Aqui e hoje, esta é a hora dos leigos. Ainda que, como disse o Cardeal Rylko “não é fácil ser leigo no mundo actual”. E “ser leigo nos nossos tempos requer coragem”; é a hora dos leigos porque “os leigos são insubstituíveis na tarefa de evangelização”.
A nova evangelização será feita sobretudo pelos leigos ou não se fará!
Há que deixar de considerar “por um lado” o clero e “depois” o laicado. Há que deixar de fixar a atenção numa parte ou na outra. Será a forma de começar a desfazer “nós” que entorpecem a vida da Igreja
Para o conseguir, uma das muitas vias está em deixarmo-nos conduzir pelas grandes linhas conciliares.
Uma das muitas vias está em deixar de fazer entusiastas afirmações cuja efectividade termina no momento em que se acabam de pronunciar.
Uma das muitas vias está na coerência entre o que anunciamos e o que vivemos.
Uma das muitas vias está em completar a “frase” porque ao juntar “parte” daqui com “parte” dali, o que se obtém é uma meia verdade.
Queremos declarar, expressamente e para evitar dúvidas de intenções obscuras, que, com isto, não se está a negar aos ordenados, ao clero, o lugar que lhes corresponde na vida da Igreja, mas que sai do nosso coração a mais firme e clara declaração de amor e admiração pelo sacerdócio.
Mas, como ouvimos a Bento XVI “É algo belo que, sem iniciativa da hierarquia, por uma iniciativa das bases, como costuma dizer-se, mas também por uma iniciativa realmente do alto, quer dizer, como dom do Espírito Santo, nasçam novas formas de vida na Igreja, como, por outro lado, nasceram em todos os séculos”.
Somos – os leigos dos movimentos eclesiais – os sucessores dos 72, nas palavras de R. Cantalapiedra.
O título de “fiéis leigos” (Christifideles Laici) faz jus a esta verdade.
Os Cursilhos de Cristandade são um movimento eclesial secular.
A partir do laicado, nos anos 40, a partir dum estudo profundo dos ambientes, teve origem a Essência, e Finalidade dos Cursilhos e a base da metodologia.
Fez-se chegar a “ideia” aos “ordenados” e estes abençoaram-na até com as duas mãos.. Houve concórdia amorosa, comunhão, entre clero e leigos.
Os Cursilhos surgiram do laicado para levar a Boa Nova, concretamente, aos ambientes em que cada um vive.
Os Cursilhos nascem não como uma resposta da Igreja ao mundo, mas como uma forma de comunicar ao homem que Deus o ama. Foram pensados, estruturados e rezados não para evangelizar o mundo mas sim o homem.
Os Cursilhos surgem para provocar a fome de Deus no mundo e no lugar onde cresce e amadurece normalmente o cristão.
A finalidade que procurou a “ideia” Cursilhos não foi para fazer coisas, assistir a actos, fazer que assistam a actos, mas para que, crescendo e desenvolvendo-se onde Deus os plantou, com fé, com esperança e com caridade, feita vida pela sua ligação com Cristo, possam ser manancial inesgotável de discernimento, emissores de autenticidade, e impulsores de energia e alegria evangélica na família, no trabalho e na diversão.
“O método dos Cursilhos quer contribuir para a mudança, em sentido cristão, dos ambientes onde as pessoas vivem e actuam, pela incersão de homens novos que a isso chegaram graças ao seu encontro com Cristo…” (João Paulo II). Permanecendo cada um no estado a que foi chamado, (1Cor 7, 24) porque não há que desviar ninguém do hábito de estar com a família, no trabalho, no ócio, mas converter a sua forma de estar, fazendo da graça uma forma de se orientar.
Os Cursilhos, como tudo o que é humano, não são perfeitos, mas a confusão e os problemas começam, quando, sem uma ideia cabal do para que foram pensados, se pretende levar a generosidade que, pela graça de Deus, suscitam àquilo que a cada um parece melhor.
Nos Cursilhos proclama-se uma linha secular porque a estratégia se centra na pessoa e nos ambientes, e não nas estruturas.
O apostolado cujo desenvolvimento se orienta mais especificamente para as estruturas intra paroquiais já existia anteriormente e continua a ter vida. Um apostolado, sem dúvida, excepcional e extraordinário, que se leva a cabo através da sua pastoral. Um apostolado que, sem dúvida, é muito bom e eficaz para os “operários” que foram chamados para vinha desde a primeira hora, mas que não parece que enquadre na entrega apaixonada dum recém-convertido. Porque a estrutura paroquial se mostra por vezes demasiado estreita e demasiado alinhavada para satisfazer as necessidades da pastoral e da formação do conjunto dos fiéis. A paróquia ou outras estruturas da Igreja, não parecem ser a plataforma mais adequada e muito menos a a exclusiva para chegar a certos sectores, especialmente aos mais afastados, e fermentá-los cristãmente.
Os Cursilhos apontam não de forma exclusiva mas especialmente, para os afastados que não participam nos actos paroquiais ou assistem aos mesmos de forma rotineira, sem que lhes doa não participar neles. Ainda que seja certo que sempre que a paróquia precise de colaboração pontual, sempre esta será prestada com simplicidade, sem invadir campos nem assumir tarefas que pertencem a outros grupos.
Eduardo Bonnín sempre sublinhou, de forma contundente, clara e concreta, que os Cursilhos são um Movimento da iniciativa de leigos, em que os sacerdotes colaboram com o seu papel fundamental.
Que os Cursilhos só podem ter perseverança e crescimento mediante a articulação perfeita entre leigos e sacerdotes.
O Movimento dos Cursilhos, hoje mais que nunca, tem que estar firmemente assente na fé que vive em união estreita, cordial e amistosa com todos, leigos e sacerdotes, … sem atitudes de “mandão” de ninguém, com santo real medo, com assombro continuado e com a sobrenatural naturalidade, não de crer saber, mas de saber crer. È evidente que o Movimento dos Cursilhos pode levar a Boa Nova aos lugares mais afastados e alheios ao raio de acção normal dos ordenados.
Os Cursilhos, como Movimento eclesial secular, fazem-se realidade na pessoa que vive o Baptismo, anunciando a Boa Nova do Evangelho, o Amor de Deus, mediante testemunho nos lugares que percorre o metro quadrado em que está situado, dos ambientes em que vive: a casa, o trabalho, os lugares de ócio. Porém, sempre em íntima união com os sacerdotes.
Rezemos juntos, sacerdotes e leigos, para que no metro quadrado à nossa volta, nos locais de qualquer ambiente em que nos encontremos, ao encontrarmo-nos com qualquer irmão, esbanjemos Amor (Lc 10, 25-29 e Mc 12, 31) com espírito samaritano (Lc 10, 30-37).
Porque, Igreja, somos todos. Não somos Igreja ou mais Igreja por ocupar um posto ou um cargo ou uma missão mais ou menos qualificada ou importante.
Não!
Somos Igreja porque estamos baptizados e confirmados na fé em Jesus Cristo.
Como sempre, despedimo-nos pedindo a Nosso Senhor que nos mantenha unidos no seu amor e amizade.
De Colores!
Juan Ruiz – Presidente OMCC
III – Uma nota do nosso Director Espiritual
“Desperta, tu que dormes” (Ef 5,14).
E o que é que há que despertar?
1) – Juan Ruiz nas suas reflexões, citando muitos autores, refere-se aos leigos como o “gigante adormecido” que tem vindo a “despertar a pouco e pouco”.
2) – O “poder cristão” (dos leigos) “que tão frequentemente se encontra oculto e latente” (Paulo VI, EN, 70).
3) – A tomada de consciência, por cada pessoa, da fome de Deus.
Este último “despertar” é subtilmente diferente da forma de expressão que Juan Ruiz usa nos seus comentários. Defendo que a fome de Deus em si mesma não precisa ser desperta, mas, bem pelo contrário, a consciência de que todo o ser humano nasce com fome de Deus. Segundo a irmã Mary Frances, VHM, “no momento da concepção Deus infunde na moldura do seu novo filho um “dispositivo interno de busca branco”, que é activado pelo amor, cresce no amor, conduz ao amor, e realiza-se no amor. Assim sendo, há em cada pessoa este desejo inato de estar mais intimamente vinculado com o Senhor. É um anelo, uma sede, uma fome de amor, um reflexo da nostalgia, a sede e a fome que Deus tem de nós. Ela cita Santo Agostinho “Fizeste-nos, Senhor, para Ti; e o nosso coração estará sempre inquieto até que descanse em ti”. O filósofo francês Blaise Pascal revelou que “há um vazio em forma de Deus, nos nossos corações, que só Deus pode preencher”.
O falecido teólogo ortodoxo P. Alexander Schermann afirmou que “na imagem bíblica da
Criação o homem se apresenta como um ser faminto (vem a propósito lembrar que no pecado original o homem “comeu” o que não lhe era permitido)… a humanidade foi criada para ter uma fome , sobre tudo, de Deus… Uma das imagens da interpretação ortodoxa oriental do pecado original é que “Adão deixou de ter fome de Deus e para Deus”, Santa Teresa de Ávila está de acordo, na sua oração favorita “Só Deus basta”, Segundo Elaine Schaeffer Duffy, “o que distingue os santos dos restantes de nós não é o seu êxito, mas a sua singular fome de Deus”.
A oração e o jejum foram sempre parte integrante do “arsenal” dos cristãos. O Papa Bento XVI lembra-nos que “através do jejum e da oração podemos chegar a Cristo e satisfazer a fome mais profunda que experimentamos no mais íntimo do nosso ser: a fome e a sede de Deus” (Mensagem para a Quaresma de 2009). Leonard Ravenhill recorda: “O homem pode estudar porque o seu cérebro tem fome de conhecimento, inclusivamente do conhecimento da Palavra de Deus. Mas reza porque tem fome de Deus”.
Por último, o autor John Piper nota que “a debilidade da nossa fome de Deus não é porque Deus seja desagradável, mas porque nós estamos cheios de outras coisas”.
Durante o Cursilho, o Rolho “Ideal” torna-nos conscientes duma fome, cuja satisfação ainda não se identificou ou especificou. Os rolhos “Graça Habitual”, “Graça Actual” e “A vida em Graça” identificam esta fome como uma fome de Deus e oferecem-nos os meios essenciais para poder satisfazer esta fome. “Obstáculos à Graça” mostra-nos as formas com as quais, segundo Piper, “nós próprios nos mantemos cheios doutras coisas”, uma “comida” do espírito que nunca pode saciar. A primeira tentação que se pôs a Jesus no deserto, “converte as pedras em pão”, é elucidativa para esta meditação. Os nossos pecados são as pedras que nunca podem alimentar o espírito humano – uma pedra não tem capacidade para alimentar.
Todos os cristãos, leigos e religiosos, estão chamados a ter fome de Deus, a respeitar e a viver do amor e a partilhar os frutos do encontro amoroso com Deus, de quem temos fome, evangelizando. O documento pós-sinodal, de 1999, “Ecclesia in America” (nº 68) diz que “(o) encontro com o Senhor produz uma profunda transformação daqueles que não se fecham a Ele. O primeiro impulso que surge desta transformação é comunicar aos outros a riqueza adquirida na experiência deste encontro… O ardente desejo de convidar os outros a encontrar Aquele que nós encontrámos, está na raiz da missão evangelizadora que incumbe a toda a Igreja” O pré-cursilho pode ser este convite a “vir ver aquele de quem temos fome”.
A Evangelium Nuntiandi no nº46 (Paulo VI, 1975) diz que “além da proclamação que poderíamos chamar colectiva do Evangelho, mantém todo o seu valor e importância essa outra transmissão de pessoa a pessoa… Há outra forma de comunicar o Evangelho que não seja a de transmitir a outro a própria experiência de fé? A urgência de comunicar a Boa Nova às multidões de homens não pode fazer esquecer essa forma de anunciar, pela qual se chega à consciência pessoal do homem e se deixa nela o influxo duma palavra verdadeiramente extraordinária, que recebe de outro homem.”
Em 2007, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu “uma nota doutrinal sobre alguns aspectos da Evangelização”. “A evangelização implica também o diálogo sincero que procura compreender as razões e os sentimentos dos outros. … Isso exige ter em conta as esperanças e os sofrimentos, as situações concretas dos destinatários. Além disso, precisamente através do diálogo, os homens de boa vontade abrem mais livremente o coração e partilham com sinceridade as suas experiências espirituais e religiosas. Este partilhar, característico da verdadeira amizade, é uma oportunidade maravilhosa para o testemunho e anúncio cristão (nº 8).” O Cursilho lembra-nos que a amizade é um formoso e único veículo para evangelizar, isto é, se a amizade é sincera e não “falsificada”. Pela amizade, somos chamados a contagiar os outros por forma natural, com a alegria que experimentamos no encontro com Aquele de quem temos fome.
A autenticidade é a chave disto, como escreveu Juan Ruiz a propósito da necessidade de “sermos coerentes com aquilo em que cremos”. O Evangelho de quarta-feira de cinzas (Mt 6) e a primeira leitura da sexta-feira depois das cinzas, (Is 58) são úteis para o nosso entendimento. “Quando derdes a vossa esmola… quando rezardes… quando jejuardes, não vos comporteis como os hipócritas” (Mt 6), “Não será antes este o jejum que eu quero?” (Is 58). A Quaresma está estruturada para que possamos voltar a descobrir e renovar os nossos compromissos baptismais na Vigília Pascal ou no Domingo de Páscoa. Somos quem dizemos ser? Estamos a converter-nos na Boa Nova, com a renúncia ao pecado, a confiar mais plenamente no Senhor, a mergulhar mais profundamente na vida da Graça que Ele nos oferece?
Todos nós, tanto sacerdotes como leigos, somos componentes essenciais, neste projecto de levar Boa Notícia para “renovar a face da terra”. Segundo “O sacerdote, pastor e líder da comunidade paroquial” (Congregação para o Clero, 2002) “a missão da Igreja de evangelizar… exige a santidade pessoal por parte de ambos, pastores e fiéis”. O clero e os leigos são as duas asas da Igreja.
Se uma asa está ausente ou muito débil, o voo é precário, se não impossível. Juan recomendou-nos que nos abstenhamos de “atitude mandona”, que dizer, evitar o “clericalismo” (seja promovido pelo clérigos ou pelos leigos), “iluminismo elitista”, ou imposição de qualquer dos lados.
“Desperta tu que dormes!” Desperta do letargo que resulta do consumo de comida “impureza” espiritual. Desperta do letargo “somos católicos – não evangelizamos!” Desperta e livra-te de ser consumido pela hipocrisia. Desperta para Deus que tem fome de nós!
De Colores!
Pe. David Smith
Director Espiritual OMCC
PS – Durante a preparação deste artigo comovi-me profundamente (e doeu-me) a morte de dois cursilhistas da minha Paróquia – Rollan Prette e Nanette Carnaval. Roland e o marido de Nanette, Pat, tinham pertencido à minha reunião de grupo. Peço que os tenhais presentes na vossa oração, pois começaram o seu “quinto dia”
Tradução: G Silva – MCC Santarém
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