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Identidade de uma cidade
Em uma cidade do interior, onde ainda se guarda aquela estrutura rural, que em seu desenho se vê uma praça cercada pela Igreja, farmácia, armazém, padaria, prefeitura e a parada de ônibus que vem de outras cidades e dos grandes centros. Lá se houve ainda na rádio local as noticias e acontecimentos da cidade, não se deixando de citar os nomes dos cidadãos, lembrando os seus grupos familiares e a característica particular de cada um. Ali todos se conhecem, todos sabem de onde são e das suas histórias, vive-se ainda como paroquianos, ou seja, tendo na Igreja a sua referencia mais importante. E da Igreja o Padre ainda orienta o povo em suas homilias e visitas. A inocência, até mesmo por inocência, não deu lugar a esperteza do já vivido avanço tecnológico. Na Praça da cidade os meninos e as meninas brincam desejosos de se transformarem em rapazes e moças. Rapazes e moças que darão seus primeiros passos no amor, cuidados de perto pelos Pais que se animam em ajuntar as famílias e fortalecer cada vez mais a amizade e a convivência fraterna.
Mas a cidade esta vivendo um acontecimento inédito. Há um intenso corre-corre na Prefeitura, o prefeito vive recebendo pessoas estranhas à cidade, que aparece do nada e desaparece sem ninguém ver, os homens na praça dizem que é gente de fora e muita graúda, tem até deputados e senadores, dizem até que têm estrangeiros. Nesta cidade, com cara de aldeia já está presente o progresso rural, se é que podemos assim definir, as fazendas se modernizaram, o trabalho braçal já dão lugar as máquinas, as carroças foram substituídos por carros e caminhões há até quem já pensa em possuir avião para cortar o céu da cidade. É preciso multiplicar a renda, pois a procura pelos bens agropecuários aumenta a cada dia, compradores que vem dos grandes centros falam de certa demanda nacional e internacional e oferecem bons preços pelos produtos do campo. Mas hoje se observa que uma boa parte das matas está sendo derrubada e por elas se abrem grandes clareiras cortadas por estradas, há até quem diga que estão chegando grandes fabricas. Os políticos já falam em maior progresso para a cidade e que muito vai se mudar ainda.
Foi no domingo, após a missa pela manhã, como era de costume, estávamos na praça esperando que nossas esposas e mães preparassem o almoço de domingo, que conta sempre com a presença completa da família. E eis que o burburinho que se ouvia, tratava-se dessas mudanças na cidade. Foi quando ouvimos certa pergunta, e neste instante, se teve a atenção de todos. O que está acontecendo na cidade? Como que atônitos e sem entender a pergunta calamos por certo momento. Mas logo começamos a esclarecer ao Senhor Franco, um professor que após sua aposentadoria num grande centro, adotou nossa cidade para viver, pelas razões que ainda não entendíamos, a não ser, como ele já dissera que vivia ali por se tratar de ser uma cidade interiorana e rica na sua identidade, uma cidade de pessoas e não uma cidade de massa.
A pergunta que nos calou, logo em seguida nos deixou ávidos a responder. Assim todos queriam expressar a sua resposta e foi um burburinho tremendo e ninguém mais se compreendia. Tentava-se mesmo sem nada entender explicar todas aquelas coisas que aconteciam ali como benéficas e que só traria coisas muito boas para a cidade. Daquela manhã de domingo, até bom tempo depois, o assunto foi conversado por todos na cidade. Olha que as mudanças aconteciam a nossos olhos e não tínhamos a dimensão das futuras mudanças que iriam acontecer na cidade, mesmo porque, as mudanças já existentes colocavam travas em nossos olhos e não conseguíamos enxergar o futuro. Então as autoridades da cidade juntamente com o nosso Pároco diante de tantas indagações resolveram explicar para todos nós o que estava acontecendo e no que se transformaria a nossa cidade e toda a nossa região, com nossas famílias e vizinhos. Enfim foi uma tarde inteira de explicações de como seria bom para todos.
Lá estava o Professor Franco o nosso mais recente morador que ouvia a tudo em silêncio. Mas em um dado momento o Prefeito João Ferreira, no afã de melhorar ainda mais a sua explanação e a sua alegria de trazer um grande progresso para a cidade, convida ao Professor Franco para confirmar tudo que se dizia, visto que ele mesmo veio de uma grande cidade rica e promissora. Foi quando o Professor Franco, um homem sábio e simples e com poucas palavras contou a história de um homem que viveu todas as alegrias e dissabores de uma vida. E que a caminhada desse homem foi cercada de desencontros e apesar de viver muito bem daquilo que o dinheiro podia comprar, das viagens pelo país e até por terras estrangeiras, esqueceu de se encontrar com a razão da existência, este homem nunca teve tempo para Deus, apesar de conhecê-lo na Bíblia e até mesmo em alguns livros de Teologia. Estudou a história da igreja e até conseguiu fazer algumas pesquisas se aprofundando em estudos antropológicos. E mesmo assim não conseguia ver de perto esse Deus maravilhoso dos livros. Em suas palavras ficava na gente um querer entender, um querer compreender... que homem é esse e porque saber de sua história se o Prefeito pediu que ele falasse daquelas mudanças que estavam acontecendo na cidade. Será que o Professor estava armado com o prefeito para nos enrolar? Não estava e nem queria nos enganar. Ele apenas falava de si mesmo. E concluindo nos disse. Foi aqui nessa cidade, quando soltei do ônibus e me dirigi, em primeiro lugar para igreja, e lá fiquei um bom tempo pensando no meu passado. Em seguida, após essa reflexão, diria até solitária, saí e aluguei um quarto na pensão. E de lá, sempre observando da janela, comecei a ver o povo da cidade, e percebi que todos se conheciam, todos se preocupavam um com os outros, todos tinham para cada um uma palavra amiga, percebi também que ninguém passava necessidade, pois o outro, sempre atento, não deixava. E foi freqüentando as missas e ouvido as homilias e as orientações do Padre Miguel e que encontrei o Deus que tanto procurava. Foi na simplicidade e na fraternidade que existe entre vocês que o Encontrei. E a isso eu chamo de IDENTIDADE, identidade de um POVO, identidade de uma CIDADE. Por isso eu digo a vocês não tenham medo do progresso, não tenham medo das mudanças. Mas tenham medo sim, de esquecerem o jeito e a maneira de viverem, pois nunca percam essa IDENTIDADE sem ela acredito não consigam mais enxergar a Deus.
Essa pequena história é para refletirmos a nossa caminhada. Será que enquanto homens, mulheres e jovens de Fé, convertidos no anúncio do Evangelho e como servidores de Deus e da Igreja, inseridos no Movimento de Cursilho, preservamos e mantemos uma IDENTIDADE? Identidade essa, que pelo testemunho e exemplo de vida, verdadeiramente nos aproxima de Deus? Ou somos apenas mensageiros de uma verdade que não nos cega diante da Graça de Deus?
Acredito e confio que, cada um de nós, apesar das dificuldades da vida urbana, sempre estaremos em busca desse porto seguro, e como testemunha viva do Ressuscitado, somos desejosos de reviver essa IDENTIDADE, pois sabemos que os conflitos da grande cidade nos afastam DE UMA CIDADE marcada pelo seu modo de vida, onde a fraternidade se faz presente. É essa CIDADE que devemos anunciar, pois lá não haverá nem dor e nem sofrimento.
Edson da Silva Oliveira (Edinho)
edsono2003@hotmail.com
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